[09 de junho de 2009]

Augusto de Franco e a Escola-de-Redes

O Augusto de Franco, responsável pela Escola-de-Redes escreveu um texto excelente sobre "O Poder nas Redes Sociais", onde ele defende que o conceito de poder não é aplicável para as redes sociais ("poder é uma medida de não-rede") e que as redes são "movimentos de desconstituição de hierarquia". Para quem se interessa pelo assunto das redes sociais na Internet, vale a pena ver aquilo que o Augusto defende.

Ele também está organizando várias iniciativas interessantes, como um Simpósio sobre Redes Sociais e um Simpósio sobre a Escola de Redes, que vai acontecer em breve, em São Paulo. Confiram. :)
por raquel (17:12) [comentar este post]


Comentários

Pedro Ivo Rogedo (junho 9, 2009 5:48 PM) disse:

Olá Raquel,
acompanho seus (ótimos) posts, mas nunca havia escrito algo. Mas sempre há uma primeira vez...
O artigo do Augusto de Franco é bem interessante.
Mas acho que desconsidera algumas teorias importantes acerca do poder, notadamente as derivadas do pensamento de M. Foucault, G. Deleuze e notadamente as de A. Negri e M. Hardt, que o professor Henrique Antoun analisa de forma brilhante no seu artigo inicial do livro "Web 2.0", com o título "De uma teia à outra: a explosão do comum e o surgimento da vigilância participativa".
Ele poderia falar um pouco sobre essa posição dele com referência ao artigo do professor Antoun, não?
Um grande abraço,

raquel (junho 9, 2009 9:56 PM) disse:

Oi Pedro! Concordo com o teu comentário. É por isso que tenho divergências para com o texto do Augusto e ele iniciou o debate. :D Acho que é uma questão bastante controvertida e que merece um exame mais próximo. Vou tentar discutir mais isso em algum post futuro, mas acho que também podes contribuir! :D

Augusto de Franco (junho 10, 2009 7:43 AM) disse:

Como percebeu a Raquel, o artigo é uma provocação ao debate. Mas também se insere em uma linha de tratamento do assunto que venho desenvolvendo há 10 anos.

Sobre o comentário do Pedro (acima): o problema atual da formulação teórica nos meios acadêmicos é que elas, como dizia Isaac Newton, parecem não querer se sustentar "pela força dos seus argumentos" mas são sempre referenciadas em outros trabalhos. Já cheguei a brincar que se as citações fossem proibidas nas teses de mestrado e doutorado a ciência avançaria décadas...

É certo que as idéias, como as uvas, dão em cachos e que uma idéia poliniza a outra produzindo inovação (uma terceira idéia) por "fertilização cruzada", vamos dizer assim. Mas isso é diferente da teia de "citações cruzadas" que constituem o critério de validação da produção acadêmica. Você é reconhecido pela burocracia sacerdotal do conhecimento que pilota as universidades e centros de pesquisa se leu as mesmas coisas e deu voltas em torno de um mesmo assunto (que, de resto, é uma boa maneira de não sair do lugar). Você é ordenado (e recebe um grau ou título) na exata medida da sua capacidade de replicar essa ordem. Assim se forma uma tradição que, como toda tradição, repete passado. Ademais, nas áreas de ciências humanas e sociais, há também – para além desse tribunal epistemológico conservador – uma alfândega ideológica que deixa passar coisas consideradas sintonizadas com determinadas concepções et coetera.

Toda essa introdução é para dizer que o fato de uma formulação teórica considerar ou desconsiderar outras formulações não pode ser critério epistemológico válido em uma ciência que ainda não conseguiu responder ao requisito da testabilidade. Nesse caso, coerência interna e completude deveriam ser os critérios. Conheço um pouco Foucault (e gosto) e Negri (e não gosto). Não conheço o trabalho do professor Antoun, mas se ele trabalha com o conceito de ‘participação’, já fico de orelha em pé (em outro lugar – E=R – já disse por que, mas em breve pretendo voltar ao assunto). Assim, não posso falar sobre este último. De qualquer modo, não dialogo, nem pretendo dialogar, com esses trabalhos.

Mas dialogo com a Raquel. E nosso diálogo, parece evidente, não é propriamente sobre teoria das redes e sim sobre os pressupostos filosóficos implícitos e não declarados que estão por trás dos princípios tomados. A discussão ainda oculta aqui é sobre a ideologia que chamei de ‘darwinismo hobbesiano’, essa falsificação científica que ocupou a academia com a força de uma crença e ditou uma metafísica influente em toda parte. Ao imaginarmos que existe uma tendência (“natural” em qualquer grupo humano) para estabelecer relações e estruturas (seja lá o que isso for) de poder, tomamos como pressuposto a idéia de que o ser humano é, em alguma medida, inerentemente competitivo. Adoto, ao contrário, outros pressupostos antropológicos, como o de Humberto Maturana, para quem o ser humano é inerentemente cooperativo e, por isso, não existe fora das relações com outros seres humanos (ou seja, a hipótese em tela é a de que não existe propriamente um humano que não seja humano-social: a genética funda o humanizável mas não pode constituir o humano).

Tudo isso, é claro, tem a ver com as redes sociais que, segundo meu ponto de vista, não são nada mais do que aquilo que chamamos de ‘social’.

Por último, embora seja um cientista por formação, não trabalho propriamente com análise e sim com visões. Assim, meu negócio atual é mais a filosofia das redes do que propriamente a chamada ciência das redes.

Augusto de Franco (junho 10, 2009 8:07 AM) disse:

Oi Raquel, postei lá na home na Escola-de-Redes a capa do seu livro (que ainda não acabei de ler, estou antes do meio). []s

Pedro Ivo Rogedo (junho 11, 2009 4:35 PM) disse:

Caro Augusto, excelente sua retórica (sem ironias). Imagino que não tenha compreendido como um ataque indelicado, mas sim uma apresentação de outra linha de pensamento (que, de fato, tem sido dominante nas ciências sociais).
Concordo integralmente com sua crítica. Mas, infelizmente, isso é uma construção institucional histórica, como você bem notou. A academia, embebida ainda pelas ondas positivistas (ou neo-positivistas, ou pós-positivistas, qualquer dessas serve), continua com o mesmo problema de argumento de autoridade. Por exemplo: não é bem visto você escrever um artigo acadêmico, nos padrões aceitos, em primeira pessoa. Já ouvi de alguns professores (medíocres, em geral), a anedota que aluno não pensa. Esse eterno "em cima do muro" que os acadêmicos em geral ficam acaba, como você aponta, fazendo que não se saia do lugar.
Pois bem.
O que não entendi é o seguinte: por que poderia ser adotada uma visão cooperativa, conforme foi citado (não sou conhecedor de Maturana), como pressuposto argumentativo e não uma visão "darwinista hobbesiana"? Qual a diferença, sem que a mesma seja ideológica, em adotar uma ou outra idéia como base?
Um abraço fraterno,

Augusto de Franco (junho 12, 2009 9:41 AM) disse:

Boa resposta, Pedro. Gostei. Tentando responder: redes são pessoas conectadas interagindo, certo? Pode-se argumentar que essa interação tanto pode ser cooperativa (e amigável) quanto competitiva (e adversarial). No entanto, sistemas de interação não poderiam alcançar estabilidade para perdurar (como sociedades; i. e., para constituir o que chamamos de 'social') se não houvesse a possibilidade de coordenação de coordenações comportamentais. A linguagem (ou o linguagear e o conversar que nos torna - ou caracteriza como - humanos) já pressupõe cooperação (enquanto você fala eu ouço, não avanço sobre você nem fujo). Assim, um pressuposto compatível com a visão de que todo humano é humano-social é o de que somos humanizados na (e pela) relação com outros humanos.

Bem, mas conquanto ela seja, a meu ver, mais razoável, não é necessário assumir essa premissa para criticar a visão de poder que parte da premissa hobbesiana (todo darwinismo é hobbesiano do ponto de vista da história cultural, mas esse é outro assunto) de que os seres humanos abandonados à própria sorte, se engalfinhariam numa luta de todos contra todos. Posso sustentar que não há evidência científica que autorize tal afirmação sem que, com isso, precise me apoiar na visão maturaniana (no caso eu apenas declarei a minha escolha).

E daí? E daí que a visão segundo a qual todo agrupamento humano (ou "estrutura" social) tende a manifestar o fenômeno do poder (hierárquico, ou da dominação, ou da capacidade de mandar os outros fazerem coisas a despeito da sua vontade) toma (em geral sem declarar) esse pressuposto hobbesiano.

André (junho 13, 2009 5:49 AM) disse:

Olá Raquel. Comecei a acompanhar suas pesquisas a pouco tempo, assim como seu blog e as suas publicações e publicizações. Na última, em entrevista para o , vi que você está trabalhando "em um projeto de estudo da conversação mediada pelo computador, tentando entender como a língua é utilizada e mudada no ciberespaço e como isso reflete os aspectos sociais da apropriação".
Interesso-me bastante pelo seus enfoques, análises e posturas e como voltei a esse tema em meu doutorado gostaria de poder manter contato contigo para trocar informações, bibliografias, estudos mais novos que estão sendo feitos, grupos e pesquisadores que estão focando esse tema, eventos e locais para discussão, etc. Podemos?

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