[11 de janeiro de 2010]
Publicações e Performances: A Internet e o Fim da Privacidade
Mais informações são divulgadas
No começo de cada semestre, costumo fazer uma pequena brincadeira com meus alunos: peço a todos que procurem por seus nomes no Google. Raros são aqueles que não encontram referência alguma. Está tudo lá: nome,blogs, fotologs, perfis de redes sociais, concursos feitos, vestibular e etc. Em alguns casos, até informações bastante particulares, como CPF e endereço são possíveis de ser encontrados. A maioria dos alunos fica bastante horrorizado. O grande problema é que diversos tipos de informações que seriam públicas, no mundo offline atingem uma outra dimensão. Porque essas informações, na Internet possuem "buscabilidade" (para copiar um termo da danah boyd referente à capacidade de buscar informações e retornar resultados que é uma características dos sites de rede social) e uma perenidade inimaginável. Resultados de um concurso, por exemplo, que seriam procurados por um ou dois anos, no máximo, e depois esquecidos no mundo offline, ficam ativos para sempre no online. Enquanto perenes na rede, esses resultados podem ser buscados a qualquer momento, por qualquer um. Esse tipo de informação já era pública antes, só não tinha memória, ou seja, não persistia acessível por muito tempo, como acontece hoje. E é claro que assim, essa mudança impacta o nosso sentido de privacidade de forma mais pungente.
Performances e Atores
Os sites de rede social, é claro, ampliam essa publicização do "eu". Enquanto os indivíduos começam a publicar seus gostos, seus textos e suas fotografias, a noção de público daquilo que era privado atinge ainda outro patamar. Mas essa noção de público é um pouco diferente daquela apontada pelas informações que circulam na rede. Aquilo que é colocado público num site de rede social, num blog ou fotolog é sempre performático. Ou seja, não somos quem apresentamos ser nesses sites. Ao contrário, sites de redes sociais são como palcos, onde usamos maquiagem, representamos papéis e exacerbamos lados de nossas personalidades ou de nossos "eus" que não constituem a sua completude. Apresentamos ali fragmentos, pedaços, reflexos. Somos atores, a partir da perspectiva de Goffman. Isso porque, nesses sites, somos também interagentes, seres comunicacionais, que estão diante de uma platéia, de um grupo e temos (em maior ou menor grau) a consciência dessa exposição. Mais do que isso, nos sites de rede social temos algum controle sobre os tipos de informações que divulgamos. De uma certa forma, isso permite que as pessoas divulguem mais aquelas informações que consideram positivas a respeito de si ou que esperam que cause algum impacto na rede, ou seja, permite que as pessoas realizem performances. Além disso, como a Internet complexifica as redes sociais, essas informações circulam mais, atingindo mais gente e aumentando a exposição dos atores.
Publicações e Performances
Meu ponto é, portanto, que temos dois tipos diferentes de publicização do eu e de informações que são publicadas na Internet que modificam as nossas visões de privacidade. O primeiro tipo, que chamarei aqui de publicações, é daquelas informações sobre as quais não temos controle, como aquelas divulgadas por órgãos públicos e privados. O segundo tipo é relacionado àquelas informações sobre as quais temos controle e modificamos de acordo com nossas percepções, que são aquelas difundidas em sites de rede social e afins. São as performances. Nos dois casos, a tecnologia tem um papel fundamental, pois mantém vivas as informações, tornando-as acessíveis e buscáveis.
A Internet representa, portanto, um passo de modificação nos hábitos cotidianos das pessoas. E essa modificação está essencialmente atada à mudança de perspectiva das informações colocadas públicas e publicadas. E de uma certa forma, essa mudança tende a refletir-se também nos hábitos das pessoas, e em novas formas de apropriação que salientem mais os aspectos privados do eu. Ou seja, a conseqüência é que as pessoas criem formas diferentes de performance, para lidar com a redução da privacidade. De qualquer forma, publicações e performances tendem a impactar de forma diferente as noções de privacidade dos indivíduos. E tendem, também, a gerar práticas sociais e apropriações diferentes, que merecem ser investigadas. Um bom trabalho para uma pesquisa futura. :-)
por raquel (08:17) [comentar este post]



Comentários
Alfredo Mergulhão (janeiro 11, 2010 9:50 AM) disse:
Oi Raquel. Vou usar este espaço não para comentar o post, mas para pedir uma orientação. É o seguinte: comprei e li seu livro "Redes sociais na internet" e estou interessado em aprofundar a leitura sobre capital social. Na obra, você cita Bourdieu (pág. 46) e na bibliografia diz que o texto está disponível na sua página na internet. Eu gostaria de localizar este texto, porque ainda não achei. O link que está nas referências bibliográficas do livro aparece como inexistente. Gostaria também que indicasse as leituras mais apropriadas para um principiante neste tema. Aguardo um retorno. Parabéns pelo trabalho.
Lilian Starobinas (janeiro 11, 2010 10:00 AM) disse:
Olá Raquel, feliz 2010.
Gostei do post. Algumas idéias que me ocorrem:
1 - a idéia do performático, da "maquiagem" que usamos no "palco da internet", pode ser aplicada também a nossa presença fora dela, correto? certo, há peculiaridades nessa performance mediada da Rede, mas me parece ilusório contrapor a "artificialidade+parcialidade" das identidades na Rede à "completude+integralidade" das identidades sociais diretas. Temos também nossos papéis e nossas máscaras em cada situação social, não é? E tem gente que temos a impressão que não alcançamos nunca algo que está mais além da máscara...
2. No caso da Rede, torna-se mais complexo o jogo do "como me mostro" e "como outros jogam com minhas demonstrações". De novo, isso ocorre também na comunidade de átomos... Se eu me mostro "performática" demais, outros podem usar minha fala, minhas fotos, para fazer repercutir um efeito contrário ao da minha intenção. Assim, mesmo que seja possível selecionar as imagens - e nem sempre é - e medir as palavras, a forma como isso entrará na Rede escapa às nossas mãos. Idem na comunidade presencial, mas a reversão desse jogo, na Rede, talvez seja mais trabalhosa...
abços
Lilian
raquel (janeiro 11, 2010 10:20 AM) disse:
Oi Lilian!
Acho que tens total razão, claro. Eu escrevi em algum lugar sobre isso já, mas a idéia é que a performance na Internet te dá mais controle sobre as informações que são construídas pelos interagentes. Num sentido mais Goffman, as impressões percebidas são reduzidas no sentido em que temos mais controle sobre aquilo que expomos, o que não acontece numa interação offline, quando mesmo, apesar da performance, deixamos uma série de outras impressões que são observadas pelo outro interagente no processo. Sobre a performance exagerada, concordo também. Acho que é interessante também observar esse "exagero" como uma resposta ao novo contexto, que é exacerbado na rede. :D
Bj
Rafa (janeiro 11, 2010 11:54 AM) disse:
Oi Raquel e demais, tudo bem?
Já tinha muito tempo que não comentava no blog, mas agora tenho acompanhado-o c/ mais frequência, vou tentar participar um pouco mais.
Também escrevi sobre a representação em redes sociais no meu Mestrado e concordo em grande medida c/ Raquel e Lilian. Só gostaria de "puxar" um outro fio de debate que acho bem relevante nessa temática. Boa parte da informação disponível sobre cada um de nós na Internet (seja nas redes sociais ou em outras pgs./sistemas) só são publicadas devido a uma prévia autorização do autor, que está ou nos termos de uso de determinado serviço ou na aceitação dessa condição, previamente informada (como no exemplo das informações sobre concursos, quando os prestamos). Só acho relevante dizer que a exposição da vida privada na Internet é, em grande medida, consentida por cada um. Acho que uma discussão que cabe (e que Raquel lembrou) é a da necessidade das pessoas saberem se colocar num contexto onde uma pequena autorização de liberação de informação pode dar visibilidade mundial a alguns dados.
Abraços.
Lilian Starobinas (janeiro 11, 2010 2:01 PM) disse:
Olás de novo,
Rafa, qual é o teu mestrado, gostaria de conhecer...
Concordo que há uma participação de cada um na esfera do consentimento, mas há também um espaço que ainda é pouco resolvido, que é o do não autorizado.
Dou um exemplo: tem gente que sobre as diversas fotos que tirou num evento no Facebook. De maneira geral, não sai por aí pedindo licença para quem aparece nas imagens. Em uma situação, comentei com quem subiu as fotos que valeria à pena pelos menos escolher as melhores - em várias havia pessoas de olhos fechados, enfim, fotos que elas mesmas não subiriam.
Independente de haver uma intenção ruim, a alimentação da tua imagem na Rede vai mais além da tua própria atuação.
Nesse sentido, sem juízo de valor, o Zuckerman está certo em relembrar que privacidade é um valor que está em declínio...
abços
Suzana Gutierrez (janeiro 11, 2010 2:46 PM) disse:
Oi pessoal! :)
A conversa me chamou aqui :)
Vou tentar por alguma coisa além do que vocês já trouxeram.
Independente das performances on e offline, existe uma tendência de nos repetirmos e nos encontrarmos conosco mesmo em nossos personagens.
O alcance dado pela rede em termos de buscabilidade, perenidade e disseminação da informação, torna difícil o controle das informações postadas por terceiros.
Realmente a privacidade tende a diminuir quanto mais pervasivos e popularizados forem os meios.
abraços!
Roney Belhassof (janeiro 11, 2010 3:42 PM) disse:
Concordo plenamente que a nossa cultura está buscando um tipo de intimidade pública e isso vem de bem antes da Internet.
Ia falar sobre o aspecto performático ou de máscaras (e isso me lembra de um conto infantil onde, de tanto usar máscaras uma pessoa já não sabe mais qual é seu verdadeiro rosto), mas a Starobinas e vc já falaram quase tudo que eu tinha a sugerir.
Acrescento apenas que, se online fica mais fácil controlar nossa performance, por outro lado fica mais difícil evitar que nos conheçam através de outros ou até mesmo de manifestações descuidadas nossas. Não chega a compensar a falta da expressão corporal e dos olhares, mas merece estudo.
Quando a essa tendência de acabar com a intimidade creio duas coisas.
A primeira é que isso é um impulso memético ou cultural que está além das nossas forças e será inevitável.
A segunda é que acredito que novas formas de intimidade vão sendo criadas pois sempre há facetas nossas que reservamos a poucos irmãos de alma (adoro essa imagem celta) e até a nós mesmos.
Mariana (janeiro 11, 2010 8:14 PM) disse:
Oi, Raquel.
Não sou da área de humanas, só uma curiosa no assunto. Desculpe se der bola fora. Mas, vc não acha que essa coisa toda de privacidade NÃO É uma preocupação genuína dos internautas brasileiros?
Minha irmã leu um livro de um antropólogo, acho que era Roberto da Mata o nome, e me disse que era sobre "a dificuldade de ficar sozinho no Brasil", ou seja, sobre falta de privacidade nas relações sociais. A partir desse dia fiquei mais atenta sobre o assunto. Mas, você não acha que é até meio óbvio que, se alguém não quer algo divulgado, ela deveria começar por não divulgar aquilo? Tento mesmo entender essa noção de privacidade, mas... não vejo lógica em tanta preocupação. Se eu não falar de mim, não tem como os outros saberem. Ou tem?
(Será que a internet está brasilizando as noções de privacidade? rs.)
Rafa (janeiro 12, 2010 12:30 AM) disse:
Olá Lilian e demais,
Minha dissertação está disponível no http://www.fafich.ufmg.br/gris/biblioteca/teses/no-orkut-pelo-pearl-jam.pdf/view .
Eu concordo c/ vc, aliás, concordo muito. Só levantei aquela bola porque a gente não pode esquecer que há também uma dimensão individual na publicação de informações que é tão importante quanto a social. Como o Elias escreveu em "A sociedade dos indivíduos", somos naturais e sociais na mesma medida. Não dá p/ não esquecer a importância da esfera social da vida, mas não podemos também negligenciar a nossa dimensão individual.
Quanto ao valor privacidade estar em declínio... Não sei, precisaria pensar um pouco mais nessa passagem do Zuckerman mas, à primeira vista, arriscaria dizer que não acho que é o valor em si que está em declínio, mas sim o seu "excesso" ou não há uma exacerbação dessa privacidade. Porém, teria que pensar melhor sobre essa questão...
Abraços.