Uma coisa interessante da teoria das probabilidades: todo evento improvável, quase por definição, deve ocorrer em algum momento. Todas evidências atualmente apontam que tudo que pensamos e lembramos está armazenado em nosso cérebro, na forma de conexões de intensidades variáveis. O que diferencia você de outra pessoa são as formas destas conexões. Em parte, estas conexões se fazem de forma aleatória, apesar de guiadas por laços de realimentação em aprendizados.
Mas se supormos que alguma disfunção possa fazer com que as ligações efetivamente se façam de forma aleatória, mas que se estabilizem depois de um tempo, o que pode acontecer? Provavelmente teríamos um cérebro totalmente disfuncional. Mas com bilhões de pessoas no mundo e milhares de anos pela frente, algumas destas conexões aleatórias seriam coerentes. Com uma probabilidade muito muito pequena, o cérebro poderia se ligar da maneira exata como a de qualquer pessoa no mundo. Ou como a personalidade da pessoa em questão mesmo, mas com um conhecimento a mais. A pessoa que sofresse isso poderia acordar um dia sabendo falar alemão. Está certo, grandes chances de acordar sabendo falar uma língua absurda, mas há chances de ser uma língua absurda idêntica ao alemão.
Supondo que isso não é de todo impossível, outras variações mais interessantes poderiam ocorrer: pessoas acordando sabendo coisas que atualmente não se sabe. A origem do Universo, por exemplo. Ou sabendo desenvolver tecnologias incríveis. Existe um paradoxo de viagens no tempo que é o seguinte: um visitante do futuro viaja ao passado e revela uma teoria ainda não descoberta. O paradoxo é que tal teoria não teria sido descoberta se o viajante não tivesse retornado para informá-la, logo ele próprio não a teria. A questão toda é: de onde saiu a informação? Isso é tido como uma violação do princípio da entropia, onde deve haver gasto de energia para aumentar a ordem (leia-se informação) de um sistema. Mas informações são unicamente conexões sinápticas que, com um alto grau de improbabilidade, podem se formar "do nada" em cérebros.
Talvez tenhamos que ter um "motor de improbabilidades", como no Guia do Mochileiro das Galáxias, para que um único exemplo disso ocorresse. Mas há pessoas no mundo que aprendem a falar línguas estranhas a elas, acreditam ser outras pessoas, lembram de eventos remotos ou futuros e locais que nunca visitaram. Explicações para isso incluem memória genética, espíritos, telepatia, percepção extra-sensorial e uma gama de outras hipóteses que exigem uma profunda modificação das leis da natureza como a conhecemos atualmente. Podem até estar corretas, mas minha explicação só exige uma grande quantidade de pessoas e/ou um grande intervalo de tempo. Não estou dizendo que acredito que seja uma hipótese razoável, mesmo por que creio que existam explicações muito mais banais para a grande maioria dos eventos estranhos, apenas quero mostrar que, improvável por improvável, prefiro uma hipótese que não viole leis e conceitos já bem estabelecidos e testados.
A única evidência que tenho que isso pode ocorrer é que esta idéia toda me veio do nada, se formou na minha mente sem que eu tenha me dado conta. E na verdade eu queria escrever um conto sobre um garoto que aprende uma tecnologia alienígena exatamente desta forma e sobre pesquisadores procurando explicações quando, em princípio, tudo foi aleatório. Mas agora já desperdicei a idéia neste post.