[06 de julho de 2008]
Recebi pela lista da Compós e repasso. A carta abaixo foi escrita pelos professores
André Lemos (UFBA) e
Sergio Amadeu (Cáper Líbero) e é um manifesto contra o projeto do Azeredo, como já discuti aqui, completamente absurdo e descabido. O Sérgio Amadeu explica que
o projeto está previsto para ser votado no dia 09 de julho. Quem estiver de acordo e quiser assiná-la basta mandar um ok com o nome e a instituição para samadeu@gmail.com ou assinar no
blog dele. Quem quiser ler o projeto,
está aqui. (Os grifos do texto abaixo são meus.)
MANIFESTO EM DEFESA DA LIBERDADE E DO PROGRESSO DO CONHECIMENTO NA INTERNET BRASILEIRA
A Internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro.
Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social do século XX. Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de criação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais.
A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento e da sobrevivência da Internet.
A Internet é uma rede de redes, sempre em construção e coletiva. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento. O uso dos computadores e das redes são hoje incontornáveis, oferecendo oportunidades de trabalho, de educação e de lazer a milhares de brasileiros. Vejam o impacto das redes sociais, dos software livres, do e-mail, da Web, dos fóruns de discussão, dos telefones celulares cada vez mais integrados à Internet.
O que vemos na rede é, efetivamente, troca, colaboração, sociabilidade, produção de informação, ebulição cultural.
A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial. A Internet representa, ainda que sempre em potência, a mais nova expressão da liberdade humana. E nós brasileiros sabemos muito bem disso. A Internet oferece uma oportunidade ímpar a países periféricos e emergentes na nova sociedade da informação. Mesmo com todas as desigualdades sociais, nós, brasileiros, somo usuários criativos e expressivos na rede. Basta ver os números (IBOPE/NetRatings): somos mais de 22 milhões de usuários, em crescimento a cada mês; somos os usuários que mais ficam on-line no mundo: mais de 22h em média por mês. E notem que as categorias que mais crescem são, justamente, “Educação e Carreira”, ou seja, acesso à sites educacionais e profissionais. Devemos assim, estimular o uso e a democratização da Internet no Brasil.
Necessitamos fazer crescer a rede, e não travá-la. Precisamos dar acesso a todos os brasileiros e estimulá-los a produzir conhecimento, cultura, e com isso poder melhorar suas condições de existência. Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral.
O
Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários,
colocando cada um como provável criminoso. É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o
projeto Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos. Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão.
Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância. Se, como diz o projeto de lei, é crime "obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida", não podemos mais fazer nada na rede. O simples ato de acessar um site já seria um crime por "cópia sem pedir autorização" na memória “viva” (RAM) temporária do computador.
Deveríamos considerar todos os browsers ilegais por criarem caches de páginas sem pedir autorização, e sem mesmo avisar aos mais comum dos usuários que eles estão copiando. Citar um trecho de uma matéria de um jornal ou outra publicação on-line em um blog, também seria crime.
O projeto, se aprovado, colocaria a
prática do “blogging” na ilegalidade, bem como as máquinas de busca, já que elas copiam trechos de sites e blogs sem pedir autorização de ninguém! Se formos aplicar uma lei como essa as universidades, teríamos que considerar a ciência como uma atividade criminosa já que ela progride ao "transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado", “sem pedir a autorização dos autores" (citamos, mas não pedimos autorização aos autores para citá-los). Se levarmos o projeto de lei a sério, devemos nos perguntar como poderíamos pensar, criar e difundir conhecimento sem sermos criminosos.
O conhecimento só se dá de forma coletiva e compartilhada. Todo conhecimento se produz coletivamente: estimulado pelos livros que lemos, pelas palestras que assistimos, pelas idéias que nos foram dadas por nossos professores e amigos... Como podemos criar algo que não tenha, de uma forma ou de outra, surgido ou sido transferido por algum "dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular"? Defendemos a liberdade, a inteligência e a troca livre e responsável. Não defendemos o plágio, a cópia indevida ou o roubo de obras. Defendemos a necessidade de garantir a liberdade de troca, o crescimento da criatividade e a expansão do conhecimento no Brasil. Experiências com Software Livres e Creative Commons já demonstraram que isso é possível. Devemos estimular a colaboração e enriquecimento cultural, não o plágio, o roubo e a cópia improdutiva e estagnante. E a Internet é um importante instrumento nesse sentido. Mas esse projeto coloca tudo no mesmo saco. Uso criativo, com respeito ao outro, passa, na Internet, a ser considerado crime.
Projetos como esses prestam um desserviço à sociedade e à cultura brasileiras, travam o desenvolvimento humano e colocam o país definitivamente para debaixo do tapete da história da sociedade da informação no século XXI. Por estas razões nós, abaixo assinados, pesquisadores e professores universitários apelamos aos congressistas brasileiros que rejeitem o projeto Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo ao projeto de Lei da Câmara 89/2003, e Projetos de Lei do Senado n. 137/2000, e n. 76/2000, pois atenta contra a liberdade, a criatividade, a privacidade e a disseminação de conhecimento na Internet brasileira.
André Lemos, Prof. Associado da Faculdade de Comunicação da UFBA, Pesquisador 1 do CNPq.
Sérgio Amadeu da Silveira, Prof. do Mestrado da Faculdade Cásper Líbero, ativista do software livre.
Update:
Fernanda,
Antoun, Mônica Schieck, José Maurício Alves da Silva,
Adriana Amaral,
Marcia Benetti e
Caribé já assinaram lá no blog do Sérgio.
Update II: O
Caribé também fez uma
petição online pelo veto ao projeto. Assinem! :-)
[05 de julho de 2008]

O
Caribé está liderando uma blogagem coletiva contra a censura na Internet. A idéia é chamar a atenção para os
absurdos projetos de lei que têm circulado no Congresso Nacional, em especial, o
projeto do Senador Azeredo. O dia da blogagem é
19 de julho e estão todos convidados a participar, escrevendo no seu blog um post a respeito do assunto. A idéia é seguir na campanha do
Sergio Amadeu.
[03 de julho de 2008]

A blogosfera americana está em alas e o senador Azeredo, fazendo escola. Isso porque saiu ontem uma decisão judicial no processo entre a Viacom e o Google (a Viacom alega que o Youtube infringe direitos autorais), onde a corte simplesmente
decidiu obrigar o último a entregar dados sobre todos os usuários do Youtube, incluindo user name, os IPs associados e
uma lista de todos os vídeos que cada usuário assistiu durante toda a sua vida no sistema. A coisa é tão completamente absurda que lembra o Brasil e o projeto do qual falei abaixo. A decisão é uma ameaça ao direito à privacidade, uma vez que
todos os dados de todos os usuários serão liberados, independentemente de quem tenha (ou não) infringido o direito autora da Viacom. Além disso, a grande questão que muitos levantam é o que diabos a Viacom pretende com esse tipo de dado (a
matéria do Read Write Web menciona que querem apenas comprovar que o direito autoral está mesmo sendo infringido e não processar os usuários individualmente) - mas vamos e venhamos, essa lista será muito valiosa e escandalosamente perigosa para o indivíduo, pois conterá todos os hábitos de milhares de consumidores no sistema. Ou seja, a decisão simplesmente abre para a Viacom todo um espaço de ganho financeiro em cima da plataforma do Youtube, como analisa o pessoal do
ZDNet. Mais do que isso, tal decisão gera um perigoso precedente (levando em conta que os EUA são regidos pelo direito consuetudinário) de cedência de dados que deveriam ser sigilosos a processos individuais como discute o
artigo da Electronic Frontier Foundation. A
análise da BBC discute a parcela de culpa do Google, que não ouviu o avisos de que os dados de IP são informações pessoais. O
Fred Stutzman chama o caso de "catástrofe" na privacidade do Youtube. Resta saber agora, os rumos que o processo tomará no futuro.
Big Brother is watching you. Learn to become invisible.

O
Twitter foi uma ferramenta pela qual não dei nada quando chegou. Mas acabou pegando, cresceu bastante (inclusive em português) e muito rápido. Em poucos meses, popularizou-se em várias línguas e em vários países e tornou-se sinônimo de
microblogger. Em pouco tempo, o português tornou-se a 7a linguagem do sistema e o Brasil, um dos 10 países a utilizar mais o Twitter.
O problema é que o Twitter, assim como o Orkut quando começou a crescer exponencialmente no Brasil, não estava preparado para o tráfego gerado por uma adoção massiva. E tão logo começou a crescer, começou a trancar. E o problema não é apenas no Brasil, mas pude comprovar twitando durante a Hypertext, que é global. Como resultado, o Twitter está fora do ar muitas vezes por dia e por muito tempo. E para tentar lidar com a instabilidade, seus engenheiros têm trancado as principais ferramentas sociais, como ver mensagens mais antigas e ler as mensagens diretamente enviadas para você (!!!!!). Com isso, é claro, o tráfego tem diminuído (vide o gráfico do Alexa abaixo).
O principal uso do Twitter no Brasil, na minha opinião, é o
social. As pessoas estão lá para interagir, criar conversações, ainda que assíncronas. Ser "ouvidas" e "ouvir" os outros. A "audiência invisível" (
boyd, 2007) é essencial para a apropriação da ferramenta. A impressão de que se está em um espaço onde há outros que também estão em situações parecidas gera a identificação social da conversação. Assim, se a ferramenta não funciona para as trocas, cuja necessidade de
feedback é maior e mais imediata, ela começa a perder sua
utilidade social. E não vou nem mencionar a estratégia da companhia em
trancar as ferramentas sociais (de que falei acima) como a pior coisa que poderiam fazer. Logo, a tendência é que as pessoas comecem a
migrar e experimentar outros sistemas, como o
Plurk e o
Jaiku. Se uma massa crítica começar a sair, o Twitter vai sim, perder o bonde da história.
Mas por que as pessoas sairiam do Twitter se não saíram do Orkut quando ele tinha os mesmos problemas?
As diferenças entre os problemas do Twitter e do Orkut são enormes. A principal delas está no fato de que o Orkut não tinha concorrência quando começou a crescer no Brasil e apresentar problemas. Não havia para onde ir. O Twitter tem, e a concorrência
é superior em termos de funcionalidades para o usuário. Ou seja, há para onde ir e os lugares alternativos são melhores. Com isso, a necessidade da companhia de melhorar a estabilidade do sistema é imensa. Assim, se alguns influenciadores começarem a sair e a levar suas redes sociais consigo - e a migração é uma tendência relativamente forte entre os usuários do sistema (como a
MC já comentou)- o Twitter vai perder espaço no Brasil (e possivelmente, o movimento seja parecido em outros lugares do mundo). Claro, a migração não é automática. Mas o uso começa a diminuir (e, por conseqüência, o tráfego) até parar.
Como a companhia parece ser incapaz de lidar com os problemas de tráfego, começo a acreditar que o Twitter está com os dias contados. Pelo menos, no Brasil.
# O
Akshay Java fez
um calendário de eventos a respeito de mídia social. Ali dá para ver quando e onde acontecerão vários workshops e congressos de mídias sociais.
# Ainda em eventos, a ABCiber (Associação Brasileira de Cibercultura) divulgou uma
chamada de trabalhos (link para a chamada no blog da
Sandra, pois o site da Associação ainda não está no ar) para seu congresso em novembro. A proposta abrange vários tipos de trabalho, inclusive não- acadêmicos e de estudantes de graduação. O prazo para envio do resumo é 01/08.
# Saiu a chamada de trabalhos para a
WWW2009, que será em Madri em abril do ano que vem. A chamada de trabalhos ainda não está completa (embora já se tenha um deadline), mas no último ano teve um
grupo especial de redes sociais e web 2.0.
# O primeiro número do ano da
Webology acaba de sair online. Há artigos sobre plágio na Rede, links, classificação na web e etc. No site também tem a
chamada de trabalhos para o próximo número, cujo tema será
Folksonomies, Taxonomies, Knowledge Organizartion, the Web and Search Engines (entre os vários temas, compreende também redes sociais). Deadline para 15/08.
# Descobri um monte de free journals no site da Blackwell. Entre eles:
Communication, Culture and Critique, o
Communication Theory, o
International Journal of Applied Linguistics, o
Language and Linguistics Compass e o famoso
Mind and Language. Vale dar uma pesquisada por lá.
[27 de junho de 2008]
Estou absolutamente sem tempo para o blog. É uma montanha de deadlines, projetos, artigos e etc. que precisam ser terminados, revisados, enviados... Mas tirei alguns minutinhos para falar da
campanha do Sérgio Amadeu contra o projeto de lei 89/03 (contra o qual me revoltei apenas no Twitter, agora é hora do blog).
A campanha é contra o projeto de lei 89/03, um conjunto de medidas absurdas e sem sentido proposta pelo senador Eduardo Azeredo. A lei não apenas é absurda, ameaça a liberdade individual e o direito à privacidade, como igualmente criminaliza, por exemplo, o uso de músicas no mp3 player, a digitalização de livros e etc (o
André Lemos comentou). Na verdade, o projeto é tão flagrantemente absurdo que ninguém jamais pensou que alguém em sã consciência e com um milímetro de bom senso fosse aprovar. Claro, não contávamos com a astúcia do Senado brasileiro. O blog do
Sérgio Amadeu tem muito mais detalhes a respeito da lei e, por isso, vou abster-me de comentar mais. Basta saber que a campanha
contra o projeto de lei, que já tem a adesão de muitos blogueiros pesquisadores, como a
Adri Amaral e a
Fernanda Bruno, também precisa do apoio de todos!
[24 de junho de 2008]

Não costumo falar muito de música neste blog, mas vou abrir uma exceção neste caso. Eu adoro música clássica e, quando estive em Pittsburgh, não pude perder a oportunidade de assistir a
Orquestra Sinfônica da cidade. Daí, no dia em que eu fui, eles faziam uma apresentação de pops, ou seja, de arranjos pop, com uma apresentação especial do
Chris Botti, no trompete. Todas as apresentações muito interessantes.
Bom, mas a grande surpresa da noite foi uma apresentação especial de um grupo que está começando. Chama-se
Cellofourte e é um grupo de quatro jovens violoncelistas que mescla rock e clássico. Fiquei muito impressionada, o som deles é muito bom e os quatro são muito, muito talentosos. Tem vários vídeos no Youtube (inclusive, a banda tem um
perfil lá. Eles apresentaram algumas músicas do CD novo, que estão lançando, inclusive
Combustion, da qual gostei bastante. Não consegui comprar o CD (estava muito atrolhado, aparentemente, eles fizeram muito sucesso).
[21 de junho de 2008]
Hoje pela manhã tivemos duas sessões. A primeira que eu assisti foi a
Social Linking II: Analysis and Modeling. A sessão foi muito interessante e totalmente focada em
tags.
O primeiro trabalho foi chamado
The Very Small World of the Well-Connected, de Xiaolin Shi, Matthew Bonner, Lada Adamic e Anna Gilbert. Foi apresentado pelo Matthew (e ganhou o prêmio de best paper). Fundamentalmente, o paper é focado em nós muito conectados conectados e outros nós muito conectados. Bem interessante. O segundo paper foi
An Epistemic Dynamic Model for Tagging Systems, de Klaas Dellschaft e Steffen Staab, focando um experimento de tags e a compreensão do comportamento do usuário que cria tags (simulação). O terceiro paper foi bastante polêmico e chamava-se
Understanding the Efficiency of Social Tagging Systems using Information Theory, de Ed H. Chi e Todd Mytkowicz, discutindo a eficiência das tags diante da teoria da informação e da entropia. Todos bastante legais.
Depois disso, veio a minha sessão, coordenada pelo
Mark Bernstein, onde eu apresentei meu trabalho. Depois de mim, vieram o David Kolb, que apresentou dois trabalhos muito interessantes sobre teoria do hipertexto,
Making Revisions Hyper-Visible e
The Revenge of the Page e também do Michael A. Stefanone e do Derek Lackaff,
We're All Stars Now: Reality Television, Web 2.0, and Mediated Identities que foi igualmente muito bom.
No período da tarde, participei novamente como juri da escolha dos melhores papers, o que foi muito interessante, pois pude ver uma variedade de papers de várias áreas.

A segunda palestra do dia de ontem foi a do
Jon Kleinberg. Ele focou bastante na teoria dos grafos e falou do "efeito cascata" (efeito da difusão de informações), analisando através de várias teorias, como isso acontece na Internet e como poderíamos prever tal efeito (muitas coisas
deste paper).Esse assunto me interessa diretamente, embora eu não trabalhe com aplicações diretas da teoria dos grafos, mas ele mostrou vários experimentos interessantes.
Após, passou a discutir a privacidade dos dados e dos usuários em grandes quantidades de dados (dados liberados para pesquisa) e os ataques a esses dados. Com isso, discutiu bastante a questão da privacidade e do anonimato nas pesquisas. Foi uma palestra bem interessante, especialmente a respeito das cascatas. E também foi bem legal ter a oportunidade de assistir porque o Kleinberg ganhou vários prêmios aqui pelo seu trabalho e é realmente conhecido.
[20 de junho de 2008]
Hoje à tarde, vários trabalhos interessantes foram apresentados. Eu participei da sessão
Social Linking I: Link Inference. Vários papers muito legais:
Dynamic Prediction of Communication Flow Using Social Context, apresentado pela Munmun De Choudhury foi bem legal. Ela apresentou um trabalho quantitativo onde tenta determinar como as informacoes serao difundidas com base no contexto social.
Correlating User Profiles From Multiple Folksonomies, apresentado pelo Martin Szomszor, versou sobre o uso de tags para a identificação de perfis.
Measuring Social Networks with Digital Photograph Collections, do Scott Golder, mostrou uma forma de criar grafos de redes sociais a partir da analise de fotografias, predizendo laços a partir de quem aparece nas imagens publicadas pelos usuários. Também muito legal. :)
Can Blog Communication Dynamics be correlated with Stock Market Activity?, novamente apresentado pela Munmun De Choudhury procurou relacionar padrões de informação observados em uma rede de blogs com os picos das ações das empresas comentadas na bolsa de valores.
Ainda participei da avaliação da competição dos posters da Hypertext, que foi também muito legal. Foi uma ótima oportunidade de conhecer mais sobre os trabalhos dos alunos e de suas pesquisas, junto com o
Mark Bernstein, o
Stephen Hirtle, o
Ethan Munson e o
Frank Shipman, que também atuaram na banca.

O primeiro keynote de hoje foi o
Bernardo Huberman, autor to
The Laws of the Web. Ele falou sobre as dinâmicas dos fluxos de informação na Web. Ele focou principalmente na questão da Economia da Atenção, ou seja, discutindo a Web como um espaço com uma quantidade imensa de novas informações, o novo "bem" é a atenção e ela gera opiniões. (O
blog do grupo do GJol andou discutindo o
livro do Richard Lanham com o mesmo título). Falou de suas
pesquisas anteriores, onde analisou as formas de difusão de informações na Web (o trabalho com a Lada Adamic, com o Dennis Wilkinson e com Fang Wu, falando de virais, da "novidade" e da cooperação). Assim, ele falou de como a partir desses trabalhos anteriores, seu interesse agora é estudar como se configura a atenção na Web enquanto fenômeno e valor social e como maximizá-la. O Huberman trabalha com pesquisas mais quantitativas e com uma grande quantidade de dados, assim, seu foco aqui é enfatizar a atenção e predizer o que irá conseguir a atenção das pessoas e o que não. Mostrou que a atenção não é uniformemente distribuída, mas que é possível maximizá-la aumentando o fator novidade, que tende a decair rapidamente na Rede.
Também falou da opinião pública na Web e de como calculá-la. Vou chamar essa opinião de "coletiva", uma vez que não sei se poderia ser classificada como pública. Discutiu dois pontos que eu achei bastante relevantes: Em um estudo sobre os reviews na Amazon, ele descobriu que quando
não há custo de expressão de uma opinião, a coletividade tende a
polarizá-las. Quando
há custo, a tendência é que a
opinião coletiva seja suavizada com o tempo, pois as pessoas apenas se expressam se discordam da mesma. Ou seja, o que ele implica com isso é que a
ferramenta tecnológica pode influenciar o modo através do qual a opinião coletiva se exprime, o que pode não necessariamente revelar tendências de opinião. Isso seria uma conseqüência direta da busca pela
influência (que eu chamaria de capital social). Achei especialmente relevante a noção do custo e do ganho social que ele expressou como determinante para as opiniões (falo disso nos meus artigos sobre capital social).
A palestra foi ótima e o Bernardo é muito simpático (me disse que é argentino). Aqui várias discussões apareceram com base naquilo que ele disse e nos seus estudos.
[19 de junho de 2008]
Cheguei, finalmente. Depois de muita correria, confusões, 36 horas de viagem, quase nada de sono e uma espera de 9 horas no JFK, finalmente cheguei em Pittsburgh e no hotel da conferência. Não vi ninguém conhecido - mas como meu vôo atrasou, cheguei depois das ativdades do dia e perdi até a registration que vou ter que fazer amanha.
Por enquanto, nenhuma novidade. Só que o hotel realmente parece o Overlook e eu me sinto o Jack Torrance olhando para todos os detalhes e imaginando a pujança do passado do hotel. Tem até as fotos das festas e manchetes de jornais em quadros na parede dos salões!!! Mas é um prédio histórico e bem legal. Também adorei Pittsburgh. Totalmente diferente do que eu esperava, mal vi o Monte Washington e já comecei a imaginar o Fort Pitt. Daí o cara da van me perguntou se eu gostava muito de história e eu fiquei com vergonha de dizer que gostava mesmo era de quadrinhos... hahahahahaha Enfim, cheguei tarde e quero descansar que amanhã tem o Bernanrdo Huberman, o primeiro keynote da conferência. Vou comentar coisas via Twitter em português, para quem não conseguir acompanhar via o Twitter da conferência - em inglês.
[10 de junho de 2008]
#Duas matérias interessantíssimas do JW hoje: A primeira é
A Cauda Longa do Jornalismo, escrito pelo
Caribé (adoro os textos dele). Fala do jornalismo colaborativo, da especialização das notícias e, de quebra, ainda discute a questão da credibilidade. Vale ler. A segunda é a informação de que
a UFMS está criando um Grupo de Pesquisa em Ciberjornalismo, que vai ser filiado ao
GJOL da Facom/UFBA coordenado pelo Marcos Palacios (tb sou fã).
# Mais dois posts imperdíveis do Akshay Java. O primeiro fala do
Modelo da Câmara de Eco na difusão de informações nos blogs e o segundo,
focando formas de quantificar o capital social.
#O Sergio Amadeu discute
a resolução do TSE que proíbe a propaganda política na Internet 48 horas antes da eleição.
[07 de junho de 2008]
Estive ausente, participando do GT de Comunicação e Sociabilidade da
Compós 2008. Infelizmente, não consegui comentar porque não tínhamos Internet disponível nem no local do evento e nem no hotel. O encontro deste ano foi o primeiro em que participei deste GT, coordenado pelo João Freire Filho. Achei muito interessante a interlocução e o foco dos trabalhos. Os trabalhos da Beatriz Bretas (UFMG), da
Adriana Amaral (UTP), do Edilson Cazeloto (PUC-SP) e da Paula Sibilia tocavam, direta ou indiretamente como o tema da sociabilidade no ciberespaço, o que foi muito legal pois o debate cresceu. Também apresentaram excelentes trabalhos o Paulo Vaz e a Mariana Pombo (UFRJ), a Janice Caiafa (UFRJ), o Henrique Mazetti (UFRJ) e a Barbara Szaniecki (PUC-RJ).
Agora mais 10 dias por aqui e em breve, mais um encontro, desta vez a Hypertext 2008, em Pittsburgh. Este eu pretendo comentar ao vivo. :-)
[30 de maio de 2008]

Acompanhei o caso do
Pedro Doria via
Google Reader, pois cerca um assunto que muito me interessa. A novela começou quando o Pedro colocou no blog
um pedido para que Fernando Gabeira fosse candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. A campanha adquiriu vários contornos e acabou que Gabeira se candidatou mesmo. Esta semana,
o deputado recebeu uma ordem judicial para
retirar do blog do Pedro Doria os banners de apoio ao candidato, bem como os sites da campanha. Apesar de não ter tido acesso à decisão judicial, vou comentar alguns pontos.
Inicialmente, estranho a
ordem para que Gabeira retirasse do blog que não é seu e com o qual não tem nenhuma participação (exceto, talvez, por uma amizade com Pedro Doria) o banner e a campanha. Além de criar um precedente absurdo, não faz qualquer sentido. Isso quer dizer que, se eu fizesse aqui um blog em favor de um cadidato que detesto, o Exmo. Juiz mandaria
cassar o candidato que não tem nada a ver com isso? Percebam o problema: com a lógica da Internet, onde cada indivíduo é um potencial produtor de conteúdo, é humanamente
impossível ao mais bem intencionado candidato controlar o que 30 milhões de brasileiros estão fazendo aqui com o seu nome. Quero dizer, para mim, a ordem tem um vício em sua emissão, pois ela responsabiliza alguém que não pode ser responsabilizado pois não teria (tecnicamente) nenhum controle sobre os fatos. Em uma analogia simplória, seria como responsabilizar um candidato porque as pessoas estão falando sobre ele na rua.
Em um segundo momento, o mérito da questão é complicado. A
CF garante, em seu artigo 5o, inciso IX, o direito à liberdade de expressão como cláusula pétrea de um Estado de Direito. Isso significa que é um direito constitucionalmente garantido, no Brasil, às pessoas de
expressar livremente sua opinião. A CF não faz nenhuma restrição com relação ao modo através do qual essa opinião é expressa, ao contrário, o artigo 220 ainda esclarece:
"Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição"(grifo meu). Do meu ponto de vista, solicitar ao Pedro que retire, do seu blog particular, que é um veículo de expressão individual, opinativo e pessoal, as referências ao Gabeira e o apoio ao candidato constitui-se, sim,
em censura, elemento que é (e deve ser) extirpado de um Estado de Direito. É uma ordem para que a opinião pessoal de alguém seja tolhida, excluída e tachada como propaganda. É exatamente como impedir que as pessoas utilizem bottons, adesivos ou simplesmente declarem, publicamente, seu apoio aos candidatos. É propaganda? Tecnicamente, sim. Mas daí também, qualquer expressão individual - mesmo a fala - tecnicamente também o é. Mas a Justiça tem acolhido a expressão individual como permitida (vejam que é possível votar com bandeiras, bottons e etc.) desde que não seja alardeada. Assim que nenhuma ferramenta da Internet como os blogs (exceto talvez pelos banners e pop-ups), fazem alarde, já que é preciso ir até as pessoas (a chamada propaganda
pull, onde o consumidor vai ler se interessar) para ler o que essas ferramentas explicitam, não há difusão massiva (a chamada propaganda
push, empurrada para cima do consumidor que não tem controle sobre ela, como nos meios de comunicação de massa).
Na minha opinião, é preciso esclarecer o que deve ser considerado propaganda eleitoral e o que é garantido constitucionalmente como direito de expressão individual. Lendo a
Lei Eleitoral, não vejo nenhum dispositivo que defina o que é considerado propaganda eleitoral e como esta poderia ser controlada na Internet, ainda que por analogia. Pesquisando em artigos jurídicos e em doutrina menos ainda. Há
artigos que tratam das home-pages, chats e e-mail. Este
outro artigo trata ainda do que pode ser considerado propaganda eleitoral. Mas nenhum deles diferencia e especifica a questão da opinião pessoal nos blogs, fotologs, sites de redes sociais e etc.
E o que fazer? Não acho que a Internet deva ser uma terra sem lei. Mas acho que é preciso preparo e razoabilidade por parte dos juristas e legisladores ao analisar este novo meio, muito mais complexo que os anteriores. Não é possível que se compare a Internet com os meios de comunicação anteriores.
É diferente em sua estrutura, na produção e no compartilhamento de informações. Conseqüentemente, tem a capacidade de gerar efeitos muito diferentes sobre a sociedade, efeitos estes não previstos pelos dispositivos legais atuais. Estes sim, se levados a efeito por analogia, gerarão conseqüências absurdas para um Estado de Direito, como foi o caso da ordem judicial que comentei aqui.
Update: (via lista do
JW) E o
coordenador estadual de fiscalização da campanha do Rio assinou uma portaria liberando a campanha em blogs e páginas de sites de relacionamento.
Para quem quiser acompanhar, alguns alunos da disciplina de Jornalismo Digital da UCPel estão fazendo uma pequena cobertura da
Intercom Sul 2008, em Guarapuava, Paraná. Em
blog e
Twitter.
[28 de maio de 2008]
O Akshay Java, do blog
Social Media Research fez um
post comentando a "triologia" da pesquisa em redes sociais. Eu fiquei inspirada a comentar, já que uma boa parte da minha tese é uma recuperação dos estudos de redes sociais, para desaguar no estudo das redes sociais na Internet. Vou aproveitar e fazer algumas recomendações de leituras a respeito dos assuntos.
A Análise de Redes Sociais

O estudo das redes sociais não nasceu, como o Akshay Java aponta, da triologia Barabási, Watts e Strogatz (daqui a pouco falo sobre eles). Na realidade, há uma longa esteira de estudos a partir dos quais a metáfora das redes foi aplicada para os grupos sociais. A
Sociometria, que surge a partir do início do século, com os trabalhos do Jacob Moreno, por exemplo, é baseada na
Teoria dos Grafos, que deu origem a boa parte das abordagens de redes em várias ciências. A Sociometria é um dos braços que auxilia na construção do chamado paradigma da Análise de Redes Sociais. A ARS é um conjunto de métodos de estudo dos grupos sociais como redes, mas que continua, inicialmente, um forte viés empírico e uma tentativa de
medir as relações, laços e interações sociais, como componentes da
estrutura social. Assim, a ARS é uma forma
matemática de
análise sistemática de grupos sociais. Quem trabalha com a ARS, por exemplo, trabalha com elementos como sociogramas, graus de centralidade dos grafos (Degree Centrality, Betweenness Centrality, e Closeness Centrality), centralização e etc.
Para saber mais sobre a ARS
#Site da International Association for Social Network Analysis (ISNA). Além de uma extensa bibliografia, tem várias definições a respeito do que é e do que não é Análise de Redes Sociais.
# Compêndio de métodos, dados e definições a respeito da ARS do Robert A. Hanneman e do Mark Riddle. É bom para quem quer conhecer como tratar os dados e como usar os softwares.
# Outro compêndio de introdução à ARS. Especialmente bom nos chamados fundamentos matemáticos.
# Livros legais para compreender a ARS:
Models and Methods in Social Network Analysis (Peter J. Carrington)
The Development of Social Network Analysis: A Study in the Sociology of Science (Linton Freeman, um dos pais da ARS)
Social Network Analysis: Methods and Applications (Structural Analysis in the Social Sciences) (Stanley Wasserman e Katherine Faust, um dos meus primeiros contatos com a ARS, bastante recomendado)
Introducing Social Networks (Alan Degenne e Michel Forsé)
Social Network Analysis: A Handbook (John Scott)
O estudo das redes sociais na Internet, no entanto, quase não era abarcado pela ARS. A partir do início da década de 90 e final de 80, os trabalhos do sociólogo
Barry Wellman é que começam a vir nessa área. Ele tem uma larga história dentro da ARS (vide, por exemplo, seus
artigos sobre métodos de análise de redes sociais e sobre
Teoria de Redes Sociais. O Wellman não só é um dos primeiros a focar no estudo das redes sociais na Internet, como também abarca uma perspectiva menos quantitativa nesta discussão. Ele também já utiliza conceitos como o de
capital social como fundamentais para a definição da estrutura social. (Atenção: Wellman defende firmemente o estudo das redes sociais como fundamentalmente
empírico e sistemático baseado nos preceiros da ARS. Para esta perspectiva, não há análise de redes sociais em trabalhos meramente reflexivos. O estudo das redes sociais é firmemente fundado na análise sistemática de larga quantidade de dados obtidos em campo e do que os dados mostram, para só depois, permitir a reflexão sobre os dados.)
O Wellman também tem vários livros que introduzem o estudo das redes sociais, principalmente o
Social Structures: A Network Approach, o
Networks In The Global Village: Life In Contemporary Communities (um dos primeiros a lidar com a Internet enquanto espaço da rede social) e o
The Internet in Everyday Life, com a Caroline Haythornthwaite.
Outro nome importante nesta perspectiva é o
Mark Granovetter. Ele trabalho com o espalhamento de informações dentro das redes sociais e é o nome que criou o conceito dos laços "fortes" e "fracos". Ele escreveu um famoso artigo na década de 70, denominado
The Strengh of Weak Ties (que depois foi revisitado), além dos livros
Getting a Job: A Study of Contacts and Careers e
The Sociology of Economic Life (mais do ponto de vista econômico do seu trabalho).
Em resumo:
A Análise de Redes Sociais é uma perspectiva de fundamento
empírico e
sistemático, que compreende o estudo da
estrutura e da
composição dos grupos sociais e trabalha com os conceitos de laços e capital social e com as medidas de rede.
A "Nova" Teoria das Redes

A partir da década de 90, com o advento da Internet, os estudos das redes sociais foram "redescobertos" por um grupo de estudiosos de viés matemático e físico. Nesta leva estão o Duncan Watts, o Albert-László Barabási, o Steven Strogatz (que foi o orientador do Watts) e o Mark Newman. Esses estudiosos vieram de grupos que procuravam entender não mais a
composição e estrutura das redes sociais, mas fundamentalmente, a
dinâmica das redes sociais no tempo.
# O Barabási escreveu o famoso Linked: How Everything Is Connected to Everything Else and What It Means. Ele foi o primeiro a identificar, nas redes em geral, os conceitos de redes sem escalas e da conexão preferencial. Basicamente, o Barabási identificou que, nas redes sem escala há sempre a presença de conectores, ou seja, nós extremamente conectados, que contribuem para reduzir a distância média entre cada nó. Basicamente, dando um exemplo social, pensem em uma pessoa extremamente popular, que conhece muito mais gente que a média dos seus amigos: esse cara é um conector. Ou seja, através dele, você (e seus amigos) estão mais conectados no tecido social. Além disso, como o cara é super popular, há uma tendência lógica que, digamos, um novo membro do grupo venha a conhecê-lo antes de você (já que ele conhece tanta gente e transita entre tantos grupos). Essa tendência, dos novos nós conectarem-se ao conector, foi identificada pelo Barabási como conexão preferencial e como o modo de evolução da rede.
# O Duncan Watts (que na verdade publicou antes do Barabási) trabalha principalmente com o fenômeno dos mundos pequenos e da importância dos laços fracos na estrutura social (bastante baseado no Granovetter, portanto). Ele escreveu o Six Degrees,/a>, que é mais geral, um livro bastante voltado para teorias sociais, e o Small Worlds: The Dynamics of Networks between Order and Randomness, onde ele discute que a tendência à formação dos mundos pequenos seria inerente nas redes sociais.
# O Steven Strogatz trabalhou mais a fundo com as estruturas emergentes das redes sociais. Ele escreveu o Sync, mostrando que a sincronia seria uma característica dos grupos sociais e também implicando na emergência da complexidade nos sistemas sociais.
# O Mark Newman tem um trabalho mais focado na estrutura matemática das dinâmicas das redes. Ele é co-autor, com o Barabási e o Watts de um livro que tem todos os textos mais "clássicos" desta abordagem, The Structure and Dynamics of Networks. Apesar de muito interessante, o livro é bastante matemático e pode complicar a vida de quem não está familiarizado com os conceitos básicos da ARS.
# Outro livro que fala sobre essa "nova abordagem" é o Nexus do Mark Buchanan, que revisita todas as teorias e descobertas e tenta elevar a "nova" ciência das redes à categoria de paradigma científico.
Esses estudos que eu mencionei acima deram novo fôlego aos estudos a respeito dos grupos sociais na Internet, da difusão de informação e mesmo das estruturas das redes percebidas em sites, por exemplo. Apesar da maior parte do pessoal que trabalha com os conceitos da "nova teoria das redes" pouco ou nada referir-se à ARS (e vice-versa), há um forte alinhamento das duas perspectivas. Finalmente, outros trabalhos que tocam marginalmente em conceitos relacionados com a estrutura, a composição e/ou a dinâmica das redes, como os estudos dos sistemas complexos, de comportamento de multidão, e mesmo livros de divulgação científica na área - vide o
Emergência do Johnson (que é mais divulgação científica), os trabalhos do Johhn Holland (como o
Hidden Order e o
Emergence, que focam a dinâmica dos sistemas complexos) ; Stuart Kauffman (
At Home at the End of the Universe e o
The Origins of Order: Self-Organization and Selection in Evolution , focados em auto-organização, evolução e sistemas complexos; ) ou mesmo trabalhos focados em perspectivas dinâmcias de grupos como o
The Wisdom of Crowds do James Surowiecki - também costumam ser citados e utilizados pelos pesquisadores da área. Por conta disso, o estudo das redes sociais na Internet cresce como uma perspectiva
multidisciplinar, ainda fortemente empírica e sistemática, mas inovadora no que tange à complexidade de sua abordagem.
[27 de maio de 2008]
Estou absurdamente sem tempo para atualizar, então vão aí notícias em drops:
#
Vídeos das apresentações do ICWSM de 2008 estão disponíveis online, para quem deseja acompanhar as apresentações. A
ICWSM é a conferência de blogs e mídia social que aconteceu em Seattle, em março deste ano.
# O
Jornalismo e Comunicação publicou um post com uma proposição das categorias de mídias sociais a partir de um trabalho do Fred Cavazza. A proposta é interessante e bastante didática, mas achei que tem categorias ali que se sobrepõem, além de não concordar muito com a proposta de "redes sociais", uma vez que toda a ferramenta de mídia social acaba funcionando em torno dessas redes.
#O
Analytics Guru postou um comentário sobre uma mesa redonda em torno do tema de mídias sociais. O comentário, dividido em três partes, fala também da
disseminação (mkt viral) de produtos em redes sociais e das
campanhas em mídia social.
# Essa
matéria do ReadWriteWeb fala das "multidões não tão inteligentes" (referência ao livro
The Wisdom of the Crowds do James Surowiecki). A referência contrária é a questão do
Groupthink. Essa idéia foi proposta pelo William H. Whyte e discutida pelo Irving Janis: quando há muitas pessoas envolvidas na tomada de uma decisão, haveria uma tendência a evitar conflitos e aceitar a decisão menos ótima (uma decisão mediana) simplesmente para evitar o confrontamento por parte do grupo. Isso significaria que grupos grandes tendem a tomar decisões
piores que grupos pequenos ou indivíduos preparados.
# Finalmente, semana que vem estarei presente no encontro da
Compós 2008, em São Paulo, apresentando um trabalho denominado
Práticas de sociabilidade em sites de redes sociais: Interação e Capital Social nos Comentários dos Fotologs no GT de Comunicação e Sociabilidade. Vou fazer uma cobertura do evento e dos trabalhos para quem quiser assistir, no Twitter.
[18 de maio de 2008]

Uma das pesquisas que eu atualmente estou conduzindo busca compreender as motivações que as pessoas têm para "passar" uma determinada informação adiante e como essas motivações influenciam a
forma através da qual a rede social "reverbera" a mesma informação. Tenho um projeto que conta com o apoio do
CNPq para estudar essa questão nos blogs, e de um modo específico, na blogosfera brasileira. Uma das minhas hipóteses é a de que parte das motivações das pessoas para publicar uma informação e não outra refere-se ao
ganho social percebido nesta difusão.
Eu chamo essas informações passadas adiante de memes, apesar desta conexão não ser minha e já ser bastante popular nos estudos de difusão de informação nos blogs (vide
Adar, E., Zhang, L., Adamic, L. A., & Lukose, R. M, 2004 e Halavais, A. C., 2004, por exemplo). É um conceito controverso, mas bastante adotado pelo seu caráter "viral" de compreender o espalhamento das informações. Um meme, assim, é compreendido como aquela informação (quase sempre associada a um link) que é propagada blog a blog, a partir da idéia do Richard Dawkins no livro "O gene egoísta". Há uma parte da literatura que tenta observar os padrões de difusão dessas informações e outra parte que busca compreender os mecanismos através dos quais essas informações são espalhadas (como piadas, vírus de e-mail, sites legais e etc.), o que influencia bastante a visibilidade na blogosfera. Inicialmente classifiquei os memes em dois tipos:
interacionais e informacionais. O primeiro tipo compreende a informação que apela para seu valor social, ou seja, que tem um alto caráter conversacional, polêmico ou simplesmente, de diversão e que é publicada com o foco na interação na rede social. O segundo compreende a informação cujo valor é mais relacionado à noticiabilidade, ou seja, ao furo, à informação que será divida com a rede social. No meme interacional, o valor está no fato do mesmo ser "reverberado" por outros blogs e comentado (logo, esse tipo de meme é frequentemente espalhado por dentro dos clusters das redes de blogs). No meme informacional, o valor está no fato de se ser o primeiro a publicar na rede (logo, esse tipo de meme raramente se espalha pelos clusters, mas normalmente atinge um único nó de cada cluster). A idéia é primeiro verificar essas conexões de um ponto de vista qualitativo e, em um segundo momento, através da análise de redes sociais. Até então, tenho 54 entrevistas em profundidade com blogueiros, 150 blogs observados e 988 memes coletadas com um padrão observável.
O objetivo deste post é mostrar alguns dos resultados que estão aparecendo no meu trabalho, os quais vou apresentar na
Hypertext 2008, mês que vem. Duas coisas parecem bastante promissoras. Um dos primeiros resultados que apareceram na minha pesquisa foram as motivações das pessoas e o tipo de meme publicado. Relacionei, assim, os
memes interacionais com as motivações de
a) criar um espaço pessoal (o que relaciona-se com a interação na medida em que é requisito desta reconhecer, em um blog, a "voz" de alguém);
b) criar interação, ou seja, receber comentários, ver outros blogueiros comentando o mesmo fato. Já os
memes informacionais seriam relacionados com outras motivações, a saber
a) criar autoridade ou reputação, onde o objetivo é ser reconhecido como "autoridade" em um determinado assunto ou expor um conhecimento específico;
b) gerar popularidade, ou seja, receber links e tornar o blog um conector;
c) criar -e dividir - conhecimento, ou seja, dividir uma informação, gerar debate e proporcionar conhecimento para a blogosfera. Ou seja, até então tenho uma pequena confirmação de que
a identificação, ainda que inconsciente dos valores presentes nas informações divulgadas e na percepção da própria rede social influencia, e muito, o padrão de difusão que esta informação terá na blogosfera.
A partir desta construção, estou tentando discutir as estruturas de espalhamento das informações e as percepções dos blogueiros de suas próprias redes sociais. Ou seja, as informações são publicadas com foco no que o blogueiro constrói como sua "audiência" na rede social, mesmo que sua percepção não seja condizente com a realidade. O objetivo é compreender um pouco melhor se há algum tipo de padrão estrutural das redes que proporciona tipos diferentes de difusão.
A idéia de postar um pouquinho da pesquisa aqui - e é só um pouco dela mesmo - nasceu da proposta de dividir conhecimento e verificar como a rede social reverbera as informações. O
resumo do trabalho está disponível online e o original está na
biblioteca da
ACM. Infelizmente só tem uma versão em inglês disponível mas, em breve, termino o segundo paper sobre o assunto e, desta vez, espero fazer uma versão em português, mas quem quiser, pode enviar um email que mando o paper original.
Fonte da Imagem: Trabalho da Lada Adamic.
[13 de maio de 2008]

E o Google apresentou ontem a mais nova ferramenta de rede social. Trata-se do
Google Friend Connect. A idéia é muito ousada: A ferramenta permitirá que qualquer site possua ferramentas de rede social, como amigos, espaços de interação e etc. A percepção é a que o sistema vai gerar um modo de juntar as várias redes, sem a centralização de um site de rede social.
O blog
The Social Web explica:
In other words, Friend Connect does two things: adds social networking features such as registration, profiles, messages etc. to any site from scratch, or takes advantage of existing social networks and other social services that offer ‘data portability’ APIs so that users won’t have to recreate their friends lists on every site they join. But perhaps more importantly, does both without the need for site owners to write any code of their own.
O
Fabio Giglietto postou
o vídeo do Youtube que mostra o funcionamento da ferramenta no Twitter. O que todo mundo está se perguntando é se a ferramenta será significativa, uma vez que qualquer site poderá ser um site de rede social, e como seu uso (uma vez lançada) vai alterar o uso dos já tradicionais sites de redes sociais, como o Orkut e o Facebook. Vale conferir.