[13 de maio de 2008]

E o Google apresentou ontem a mais nova ferramenta de rede social. Trata-se do
Google Friend Connect. A idéia é muito ousada: A ferramenta permitirá que qualquer site possua ferramentas de rede social, como amigos, espaços de interação e etc. A percepção é a que o sistema vai gerar um modo de juntar as várias redes, sem a centralização de um site de rede social.
O blog
The Social Web explica:
In other words, Friend Connect does two things: adds social networking features such as registration, profiles, messages etc. to any site from scratch, or takes advantage of existing social networks and other social services that offer ‘data portability’ APIs so that users won’t have to recreate their friends lists on every site they join. But perhaps more importantly, does both without the need for site owners to write any code of their own.
O
Fabio Giglietto postou
o vídeo do Youtube que mostra o funcionamento da ferramenta no Twitter. O que todo mundo está se perguntando é se a ferramenta será significativa, uma vez que qualquer site poderá ser um site de rede social, e como seu uso (uma vez lançada) vai alterar o uso dos já tradicionais sites de redes sociais, como o Orkut e o Facebook. Vale conferir.
[11 de maio de 2008]

Inicialmente, minha tese abrangeria uma larga parcela de dados a respeito do surgimento e do crescimento do Orkut no Brasil. Como esse material acabou sendo cortado, resolvi fazer um post sobre o capítulo. :-) A idéia inicial era comentar o crescimento do Orkut no Brasil e apontar alguns elementos significativos da minha percepção sobre este crescimento que iriam para a tese.
Como todos sabem, o
Orkut foi lançado comercialmente pela Google em janeiro de 2004. Lembro especialmente de tomar conhecimento da ferramenta em uma matéria da Wired que comentava, justamente, a necessidade de
ser convidado por alguém logo depois do lançamento (apesar disso, nunca mais achei a matéria lá, provavelmente por conta das reformulações que a revista sofreu). Antes disso, seu antecedente foi o
Club Nexus (
Hampell, 2004), que era o sistema que tinha sido originalmente desenvolvido pelo Orkut Buyukokkten como site de rede social e que era principalmente utilizado pelos alunos de Stanford em 2001, onde ele fazia o doutorado. Ele disse que o Google se interessou pelo projeto e acabou modificando e lançando em 2004 com o nome dele (o que o próprio Orkut não achou muito bom).
Quando eu fui convidada para o Orkut, por um amigo da Unicamp, lá pelos idos de fevereiro de 2004, o site já tinha um número razoável de brasileiros. A maioria eram amigos/colegas da área de informática, mas uma boa quantidade de blogueiros conhecidos e empreendedores de Internet começava a entrar na mesma época. Dentre as iniciativas interessantes dos brasileiros, estava o uso das comunidades para dar
personalidade para o perfil, coisa que os americanos, que até então eram a maioria dos usuários, não faziam e a
competição pelo número de amigos e de comunidades.
Havia já algumas diferencas básicas do comportamento dos brasileiros e americanos na época. Acho que o pessoal do Brasil foi muito mais influenciado pelo Orkut como uma
grande novidade porque o Friendster, que sera o site de rede social mais conhecido por aqui não tinha pego muito bem. E a idéia de trazer os amigos e experimentar era muito forte. Lembro que meus amigos americanos muito raramente usavam o Orkut para conversar ou mesmo para abrir tópicos nas comunidades. Os brasileiros faziam muito mais isso. Outro elemento que inicialmente atraiu muita gente foi
a famosa comunidade "Como ou não Como". A idéia da original era oferecer perfis do pessoal para uma "avaliação" dos atributos pelo grupo. Lembro que era uma comunidade absurdamente ativa (chegava a ter centenas de mensagens por dia!) e era uma motivação muito forte para que quem já estivesse no Orkut convidasse os amigos para entrar (colocar os perfis deles na roda). Aliás, foi o próprio crescimento do Orkut que matou a ConC. Com tanta gente entrando, começou a ficar impossível acompanhar as mensagens nos fóruns e várias "sub-comunidades" ConC começaram a surgir. Finalmente, outro elemento que eu sempre achei determinante para a entrada do pessoal no sistema
foram as classificações (corações, estrelinhas, cubinhos de gelo e o "top ten" que existia). Todos queriam saber como os amigos os classificavam e assim, era interessante convidá-los. Outra prática comum entre o pessoal do Brasil era "invadir" as comunidades gringas e ficar falando português, exatamente como era na EFnet, na época do IRC.
O Anthony Hempell escreveu um
artigo a respeito de uma observação do crescimento das primeiras onze semanas do Orkut e, nele, começou a apontar um crescimento rápido no Brasil, Japão e Índia, especialmente a partir de março de 2004.
Fonte: Hempell, 2004.
O gráfico acima, que está no paper dele, mostra o momento em que a curva de crescimento começa a aproximar-se de uma
power law no Brasil. Nesse paper, o Hempell ainda relembra o emblemático caso do Huy Zing, que foi orkuticidado e depois, revivido; e das dificuldades em lidar com algumas das primeiras ferramentas de controle, como a prisão que era usada para prejudicar desafetos no sistema.
Outros dados sobre o crescimento do Brasil ainda podem ser encontrado em comunidades como a
Orkut Statistics. Ali temos dados do crescimento do Brasil a partir de abril de 2004, quando os EUA, pela primeira vez, reduzem sua presença para menos de 50% dos usuários. Na época, em menos de três meses, o Brasil passou de 8o país no ranking do Orkut para primeiro. Com o crescimento do número de brasileiros, muitos estrangeiros passaram a hostilizar o Brasil e a discutir essa "invasão".
Do mesmo modo, enquanto o Brasil crescia, o uso nos Estados Unidos e Japão (os dois primeiros países originalmente) caía bastante. Em meados de maio, o Brasil passou o Japão e tornou-se oficialmente o segundo nas estatísticas do sistema. Finalmente, no dia 23 de junho de 2004, o Brasil bateu os Estados Unidos, tornando-se o país com o maior número de usuários do Orkut.
Muitos creditam o aumento exagerado de usuários brasileiros ao espalhamento do Orkut nas Universidades. Em junho de 2004, por exemplo, algumas das maiores comunidades eram de universidades (UFRGS, USP e Unicamp, respectivamente) e havia uma
grande centralização de comunidades representativas do Rio Grande do Sul (que por algum tempo também foi apontado como um dos "centros" brasileiros do Orkut).
Essas considerações são elementos gerais a respeito do crescimento do Orkut no Brasil ainda em 2004. Na verdade, se pegarmos os dados do número de usuários, a
power law, nessa época, estava apenas começando. O crescimento vai se manter estável ainda pelos anos de 2004 e 2005. A partir de 2006, o crescimento do Orkut começa a levantar bastante, mas daí menos pelos brasileiros e mais pela entrada de países como a Índia e o Paquistão.

Fonte: Alexa, gráfico gerado em 2007.
Na verdade, o Brasil ainda é o grande líder em número de usuários do Orkut, mas a Índia começa a ser, cada vez mais, uma ameaça. Não só porque o crescimento estabilizou no País (o Orkut tem quase o mesmo número de perfis que a projeção do número de internautas brasileiros), mas principalmente, porque ainda não se estabilizou por lá (o que explica a queda em números percentuais do Brasil enquanto #1).
Os comentários acima foram construídos com base nos meus dados pessoais da tese e em observações genéricas sobre o sistema que tenho em meu diário de campo. Quem quiser contribuir com sua experiência ou ponto de vista, pode ir colocar nos comentários. :-)
[09 de maio de 2008]
Usei por anos as trackbacks e elas nunca funcionaram muito na blogosfera brasileira, já que poucos têm o hábito de utilizá-las. Daí as retirei porque, apesar de constituírem uma ferramenta muito legal, a maioria das pessoas não entende e acaba simplesmente como fonte de spam. Era tanto spam que eu acabei tirando. Mas atendendo a
inúmeros pedidos ;-), voltei a colocá-las (e, de quebra, estou ajudando o
Inagaki na campanha "Blogueiros brasileiros, coloquem trackbacks!").
No mês passado, o Facebook ultrapassou o MySpace em pageviews e tráfego de acordo com o
Alexa, tornando-se o
primeiro site de rede social em número de acesso no mundo. O Facebook vem crescendo bastante e em várias localidades do mundo e, de acordo com o
blog do Alexa, duplicou o número de visitantes únicos de setembro de 2007 até abril de 2008, passando a ser o quinto site mais acessado do mundo, enquanto o MySpace passou para a sexta colocação.
Enquanto isso, no Brasil, o Orkut continua em absoluto como o site mais acessado do País, o Fotolog mantém-se na 19a colocação e o Blogger na 10a. Interessantemente, o Sonico começa a aparecer no top 100 brasileiro, na frente do MySpace.
[08 de maio de 2008]

Ontem participei do workshop de redes sociais na UFRGS, que girou em torno do
Open Social, com apresentações do Manu Rekhi (meu ex-chefe, PM do Orkut), Patrick Chanezon (Open social), o diretor da Mentez (que está promovendo, inclusive,
um concurso de aplicativos para Open Social). Fiz uma mini-cobertura do que foi falado no
Twitter. Foi bastante interessante ver as idéias que estão por trás e assistir à apresentação do
Patrick Chanezon do Google. Compreendi com mais clareza as idéias que estão por trás da proposta e fiquei muito espantada com a quantidade de sites de redes sociais que vão possibilitar a verticalização das aplicações, permitindo que estas rodem
em todos os sites, como plataformas de jogos, por exemplo, que funcionarão no hi5, no Orkut, no Bebo e por aí afora. A palestra me convenceu bastante de que essa idéia pode sim ser o próximo passo em desenvolvimento para redes sociais: aplicativos verticais que unam os vários SNSs e que permitam ações entre plataformas diferentes, unindo públicos e espaços sociais.
Com a abertura para o open social e os aplicativos para o Orkut (que deve sair só na próxima ou na outra semana no Brasil) abre-se também um mercado significativo para desenvolvedores em redes sociais. Novas idéias e propostas de elementos que possam ser integrados aos sistemas podem sim render bastante. Quem quiser dar uma olhada nos aplicativos, pode mudar o perfil para a Índia ou a Estônia, onde já há um bom número de aplicativos funcionando (vários são idêntidos aos do Facebook, que por sinal, não vai entrar no grupo do Open Social). Vamos ficar de olho para ver o que vai acontecer. Aliás, no
blog do Patrick já é possível ver até indícios das aplicações para o Twitter na onde do Open Social, como a muito legal
TweetWheel, que faz um grafo dos seguidores do twitter (2 graus de separação).
[07 de maio de 2008]
Estou saindo para POA, para assistir este workshop lá na UFRGS:
Redes Sociais: Orkut e OpenSocial
Mentez, Google, Adobe e a comunidade de OpenSocial convidam você a participar deste Workshop Técnico onde se discutirá vários tópicos relacionados à redes sociais desde
oportunidades de negócios à plataformas da integração (OpenSocial) e aplicações em Adobe Flash.
Local:
UFRGS - Campus do Vale
Endereco:
Auditório José Castilho - Instituto de Informática
Av. Bento Gonçalves, 9500
Bairro Agronomia, Porto Alegre
Data:
7 de Maio de 2008
Horário:
Início às 13:00h
AGENDA
30 min.: Visão Geral do Concurso e Oportunidades para os Desenvolvedores by Mentez
90 min.: OpenSocial: Estandar para Integrar Aplicacoes à Redes Sociais by Google
30 min.: Estatisticas e Oportunidades em Redes Sociais by MySpace, Vostu e Sonico
60 min.: Adobe Technical Training (Aplicacoes em Flash Integradas ao OpenSocial) by
Adobe
30 min.: Melhores Praticas para Construir uma Infraestrutura para Suportar Milhoes de
Usuarios by Joyent
E de quebra, pretendo ainda encontrar alguns amigos do Google. Se a Internet lá no Vale ajudar, vou fazer uma transmissão comentada via Twitter e depois, comentar mais aqui no blog.
[02 de maio de 2008]
Durante o feriado li várias coisas bem interessantes para linkar aqui:
# No
Smart Mobs, um texto bem interessante sobre a construção do "novo" Yahoo! como um grande site de rede social que concentra todas as ferramentas possíveis.
#
Nova edição do JCMC: um artigo sobre o Facebook e as relações interpessoais, um sobre a confiança e sua construção nos ambientes sociais, um sobre uma comunidade de blogs africana e vários sobre jornalismo online. (Via
Jornalismo e Comunicação)
#
Matéria da Scientific American sobre a Science 2.0 ou a construção da ciência diante das potencialidades da chamada Web 2.0.
# Para quem quer saber mais sobre os métodos da análise de redes sociais (quais são e quais são seus elementos de análise), o livro (totalmente online) do Robert Hanneman and Mark Riddle da Universidade da Califórnia, denominado
Introduction to Social Network Methods é bastante elucidativo. O livro foca mais nas chamadas "análises formais" (quantitativas), mas mostra bastante como se faz análise de redes sociais dentro da ARS.
[01 de maio de 2008]

Matéria muito legal do
ReadWriteWeb sobre um
estudo que deve sair na New Scientist, dizendo que os sites de redes sociais são mais eficiente para a coordenação de grupos (por exemplo, em situações de emergência ou organização política) do que os meios de comunicação mais "tradicionais". O estudo focou a organização das pessoas via Twitter e Facebook, durante os incêndios massivos da Califórnia no ano passado.
"The mass media were unreliable, the study found, as they struggled to access remote areas from which website users with an internet connection could easily report," writes Andy Bloxham. The mainstream media was seen to be focusing on "sensational" aspects of the fire as well, according to Palen, such as homes of celebrities that were caught by the fire.
A matéria também fala do jornalismo cidadão como uma das vertentes proporcionada por essas ferramentas, que acabam noticiando coisas que os meios tradicionais não noticiam ou vão noticiar bem depois, a partir dessa coordenação. Lendo a matéria, imediatamente me veio à mente a cobertura do terremoto em São Paulo, que eu fiquei sabendo e acompanhei pelo Twitter e pelos usuários que reportavam ali o que estava acontecendo. Outra matéria que li hoje e que vai ao encontro dessas colocações é
essa matéria do Washington Times que fala dos estudantes egípcios utilizando o Facebook para organizar ativimos político e escapar da censura das autoridades.
[28 de abril de 2008]
A Marlene Larsen já comentou no
blog dela, o
Daniel Skog e o
Lewis Goodings também. Em outubro, na
Internet Research 9.0, estarei junto com eles e mais o
Jan Schmidt, a
Amanda Lenhart e a
Nancy Baym. para falar sobre Comunidades Virtuais e Redes Sociais na Internet, em uma mesa denominada
Life on the Move. Abaixo vai um pedaço da proposta:
Social network sites (SNSs) like Facebook, Bebo and MySpace are rapidly becoming a popular area of research investigating online 'communities'. This immediately raises the question of how new SNSs can be understood as a descendent of the 'virtual community' that was popularized in the 1980's (Rheingold, 1993). One irrefutable piece of information is that the number of users that seem to be joining these new sites has been growing substantially over the last few years (i.e. comScore reported Facebook had an increase of 270% between June 2006 and June 2007). This could indicate that SNSs has become an integral part of everyday online activity as a whole. The purpose of this roundtable is to further discussions on the present shapes of online communities in light of the current trajectory of social network popularity. In particular, to what extent are online communities tied to a particular site? And consequently, how can we rethink notions of community in line with recent trends in SNSs?
[...] The underlying premise is that 'life on the move' produces a certain problem for academic researchers as to how we locate the individual (or the community) in such a dispersed social landscape. Therefore, how can we understand community involvement when users are members of a number of different community sites and SNSs and move regularly from one site to another? A further problem here is how we as researchers resist the mundane assumption that inherently complex online communities are only recognisable in terms of the users movement in and out of them, surely there is much more to it than that.
A idéia é discutir como fica o conceito de comunidade virtual diante dos espaços múltiplos proporcionados pelas redes sociais e como esses fluxos modificam as comunidades. :-) Acho que a discussão será bem interessante e deve render um grande debate.
[26 de abril de 2008]

Hoje, lendo a ZH online, deparei-me com uma
matéria da
Vanessa Nunes a respeito de por que o Facebook não teria "pego" no Brasil. Fiquei tentada a falar um pouco sobre isso porque pesquisei o Orkut por muitos anos (aliás, isso merece outro post) e cheguei a escrever alguns capítulos sobre sua história e a motivação dos usuários para entrar lá na minha tese (depois acabaram não entrando no trabalho). Então, vou elencar algumas razões pelas quais eu acredito que o FB não fez tanto sucesso quanto o Orkut por aqui.
1. Fator Novidade - Em 2004, quando os primeiros influenciadores brasileiros começaram a entrar no Orkut havia, muito forte, o fator novidade. Afinal, não existia nenhum outro site de rede social popular no Brasil. O Friendster, que era o site do gênero mais conhecido na época, não tinha quase usuários brasileiros, tinha uma interface difícil e mais feinha. O Orkut entrou num mercado onde não tinha, portanto, concorrente e angariou para si todo o "fator novidade". Como hoje há muitos sites de redes sociais concorrendo entre si (só para citar alguns além do FB, o Bebo, MySpace, Linkedin, Hi5 etc. etc.), o mercado já está um pouco saturado de redes sociais. Mesmo que cada um desses sites tenha um propósito e um público-alvo diferentes, o fator novidade já se esgotou.
2. Interface - Inegavelmente, o Orkut tinha uma interface muito mais amigável do que o FB. Assim, mesmo com o sistema em inglês, como era no início, ele levava vantagem sobre o FB, muito mais complexo e feio. Além disso, o Orkut permitia a todas as pessoas verem seus amigos, o que o FB não permite (só podemos ver os dois graus de separação). Ou seja, apesar do FB ser posterior ao Orkut, a Interface que ele apresenta ainda hoje é complexa demais, fazendo com que a língua (inglês) seja uma barreira. Além disso, o fato de não permitir que se vejam os amigos dos amigos gera um contraponto forte ao hábito de social browsing (xeretar o perfil alheio), muito presente no hábito de uso do Orkut pelos brasileiros.
3. Hábitos de Uso e Custo Social - No Brasil já há um certo hábito no uso do Orkut. As pessoas usam o sistema para fazer social browsing, para saber o que há de novo na vida dos outros, para interagir com alguns amigos e expressar um pouco de quem são. Muitos destes hábitos não são possíveis no Facebook, apesar das inúmeras novidades que ele trouxe, como o API livre, o que possibilitava que as pessoas criassem jogos, testes e muitas outras aplicações diferentes do Orkut. Apesar disso, o Orkut já era, quando o FB chegou, um sistema que atingiu a maioria expressiva dos usuários brasileiros. Assim, o custo social de mudança de um sistema para outro seria muito grande. Então, as pessoas ficam lá simplesmente porque as outras também estão lá. Ou seja, para que as pessoas adotem um novo sistema, é preciso que ele ofereça algo fora do habitual para o internauta brasileiro. Neste sentido, o MySpace parece ter conseguido inovar mais, na medida em que está querendo "focar" o interesse da música.
4. Ferramentas diferentes para coisas diferentes - Uma das tendências dos desenvolvedores de sites de redes sociais é inventar sistemas que concentrem todas as ferramentas conhecidas: blog, fotolog, chat, msn etc. O grande problema é que as pessoas parecem não querer isso. Elas vêem o perfil no site de rede social simplesmente como um perfil, como mais uma ferramenta. E como já possuem um blog, ou um fotolog, ou uma conta de mensageiro, elas não usam essas ferramentas nos sites de redes sociais. Ou até usam, mas pouco em relação às ferramentas que já possuem. Assim que essas vantagens do FB tornam-se uma desvantagem. O Orkut já é uma boa "lista de pessoas", pra que outra? Assim, acho que o site de rede social, no Brasil, foi adotado com uma função específica e as demais ferramentas, com outra. O Orkut até tentou transformar o álbum de fotografias em um fotolog, mas a verdade é que não deu certo. Para um fotolog, as pessoas preferem as ferramentas específicas para isso. Até porque reduz o custo de simplesmente "deletar" o perfil quando sentir que é preciso, coisa que o usuário brasileiro faz bastante.
5.Dificuldade de Gerenciamento de Múltiplas Contas - Até aqui, defendi que o FB não conseguiu dar certo no Brasil porque não ofereceu nada além do que o Orkut já oferecia e possui um interface bem mais complicada. Além desses fatores, muitos usuários (como eu) poderiam ter várias contas e, com isso, fazer uma no FB. O problema é que o custo de gerenciar tantas contas é muito alto (perde-se muito tempo) com quase nenhuma vantagem (meus amigos todos estão no Orkut). Assim que muitos brasileiros que inicialmente adotaram o FB, acabaram desistindo.
Ainda falta, no entanto, discutir porque o "ainda"do meu título. Eu vejo também três riscos importantes para o Orkut, que poderiam levar a uma migração de um sistema para outro (não em massa, bem sabido, mas acredito que poderia fazer o Orkut cair no ostracismo).
A primeira delas é a preocupação cada vez maior para com a
privacidade. Essa preocupação ainda é latente no Brasil, mas em outros países é muito, muito grande. Há uma tendência de que as pessoas aqui também passem a se preocupar mais com o tipo de informação que colocam online, e com isso, passem a exigir sistemas que dêem mais opções de privacidade. É uma faca de dois gumes pois, se o Orkut oferecer mais privacidade, vai acabar com o
social browsing, que é o grande uso do sistema. Com isso, deve acontecer uma queda forte no tráfego do site e uma redução do uso consistente (que eu acredito que já está ocorrendo por conta das ferramentas atualmente implantadas - fotos e scraps privados). Além disso, o FB tem muito mais opções de privacidade do que o Orkut.
A segunda delas é a
mobilidade. O Orkut tem uma interface muito pesada para ser usada em celulares. O FB (e o Twitter, outro exemplo), não têm. Com o aumento do uso da Internet por ferramentas móveis, que deve acontecer nos próximos anos com muita força, pode acontecer dos hábitos de navegação modificarem-se, especialmente entre os chamados
trendsetters, adolescentes e jovens, que ainda são a maioria dos internautas ativos no Orkut.
A terceira tendência é o aparecimento de ferramentas que permitam
novos usos da rede, que tornem sites de redes sociais mais dinâmicos e menos poluídos (parece-me que o Twitter vai nessa direção), sem prejuízo da interação. Acho que esse tipo de novidade pode gerar novos padrões de adoção e, novamente, fazer com que o Orkut caia no ostracismo e o FB também.
Acho que atualmente, um site de rede social que não apresente nada diferente, mesmo que focado na segmentação,
dificilmente tirará as pessoas do Orkut. O mais provável é que elas criem uma conta lá e mantenham a do Orkut, esperando para ver se aparece algum novo uso. Em não aparecendo, pela dificuldade de manter as múltiplas contas, a tendência é que a menos usada (provavelmente a do outro sistema) seja abandonada. O mais provável é que o Orkut vá perdendo tráfego (mas não perfis) para outras ferramentas, que com o passar do tempo, podem substituir o uso dele.
Update - A
Marli, ali embaixo, nos comentários, lembrou que eu fui citada na matéria (nem me lembrava mais dessa entrevista), mas de qualquer modo, tem continuação
aqui e
aqui.
[23 de abril de 2008]
#
Comentário do Lore Sjöberg sobre o Twitter e as redes sociais na Wired. Falando da experiência pessoal, ele discute um pouco a fascinação do Twitter.
# O
Joi Ito parece ser o responsável pelo lançamento da versão japonesa do Twitter e, mais do que isso, pelo lançamento da primeira versão com
publicidade no sistema. Fico pensando quanto tempo até aparecerem os banners chatos nas versões latinas.
# O
Thomas Vander Wal falando da complexidade das redes sociais. Bem legal a apresentação para quem estuda sites de redes sociais. Olhem também a
crítica do SocialTech.(Via
Smart Mobs.)
# Meu artigo
Comunidades em redes sociais na internet: um estudo de caso dos fotologs brasileiros, onde eu procuro fazer uma discussão a respeito de redes sociais e comunidades virtuais como tipos a partir de um estudo de caso já está online na
revista do Liinc (bem legal, bem interdisciplinar).
# A
discussão a respeito do IGoogle virar o possível novo site de redes sociais do Google está a toda na blogosfera. Muitos dizem que, por conta do Orkut apenas ser um sucesso no Brasil e na Índia, o Google estaria preparando outras formas de entrar no espaço das redes sociais.
# Outra notícia importante é que o
Facebook acaba de lançar um sistema de chat/messages integrado com o site. Basta logar para testar. (Via
Ponto Media.)
[22 de abril de 2008]
Durante o
Twitter Cartoon Day monitorei um pouco a adoção da idéia pelas pessoas a quem eu sigo. A idéia veio do
Paul Bradshaw do OJB e propunha que todos substituíssem seu avatar no Twitter por um desenho. A proposta era divertida e eu adotei em seguida. Primeiro fui a Lisa Simpson e depois virei o
Purple Tentacle do DOT. Como foi um dos primeiros memes do Twitter que eu consegui pegar no início, resolvi seguir um pouco, divulgando e vendo quem estava adotando. E o resultado foi bastante impressionante.
Gráfico da adoção x horário
Do total de pessoass que eu sigo no Twitter (198), 139 são brasileiros. Destes, uns 20 são sistemas de notícias ou coletivos. Dos 119 restantes, eu diria que há uns 50% ativos, ou seja, pessoas que conectam e twittam pelo menos uma vez por dia. O que daria um total de cerca de 60 twitters ativos, dos quais houve uma adoção de quase 70%. Houve momentos em que quase todos os tweets que eu recebia eram realizados por usuários "vestindo" um desenho animado. A maioria dos usuários adotou ao meio-dia (possivelmente, durante o intervalo do almoço, pós-almoço), quando parece haver também um aumento do tráfego. É interessante também observar a curva de adoção com base em
horas ao invés de meses.
Durante a tarde, o tráfego no twitter também aumentou visivelmente. Enquanto a média de tweets que tenho por dia chega a no máximo 5 páginas por dia, no dia do Cartoon, fui a quase 15(!!), com uma expressiva maioria de tweets individuais e "sociais" e não de notícias ou informações. Minha reflexão (esse texto é só uma reflexão) me levou a pensar que memes potencialmente divertidas e com valor imediatamente apreensível (no Twitter Cartoon Day houve até eleição dos melhores cartoons) tendem a ser mais fácil e rapidamente adotadas do que memes simplesmente informativas. Também passou pela minha cabeça que o Twitter tem um potencial de influência bastante grande na blogosfera, pois o Technorati apontou o tema como um dos mais discutidos do dia, com 324 referências. Ao que parece, o Twitter tem um potencial grande para espalhar memes e para agregar alguns tipos de influenciadores. Além disso, chamou minha atenção como esse tipo de meme tem realmente um
grande potencial social, pois parte da graça de adotar um cartoon é poder exibí-lo e discutí-lo com os outros.
[18 de abril de 2008]
Paul Bradshaw convocando todos para o Twitter Cartoon Day nesta sexta. Eu sou a Lisa Simpson. :-)
[15 de abril de 2008]

Finalmente arranjei algum tempinho para ler e discutir o
report da Ofcom. Ele é baseado em um território geográfico (UK) e fechado em usuários deste território. Além disso, tem o grande mérito de estar baseado em estudos quantitativos e qualitativos, o que certamente provê um insight mais profundo para o estudo. Vou comentar alguns dados que achei interessantes e a relação que eu vejo entre eles e o Brasil neste post, bem como fazer algumas críticas. :-) Mais sobre a Ofcom pode ser encontrado
aqui.
Tipos de Usuários dos Sites de Redes Sociais
Uma parte da pesquisa (qualitativa) identificou cinco tipos de usuários desses sites. No entanto, minha discussão seria que cada tipo de site é apropriado por usuários com intenções específicas em termos de capital social, que pode (ou não) ser usado para isso.
• Alpha Socialisers (Socializadores alfa) – São determinados como uma minoria, e definidos como as pessoas que usam esses sites em breves e intensos períoso para flertar, conhecer novas pessoas e ser entretidos. Eu diria que essas pessoas são aquelas que buscam dois tipos de capital social: reputação e ampliação/complexificação da rede. Se estivéssemos falando do Gladwell, esses seriam os influenciadores. Esses indivíduos estão presentes nos dois momentos de adoção de uma tecnologia: o início e a maturidade, pois são eles que fazem a curva de adoção iniciar. Para a pesquisa, esses usuários são uma minoria (fazendo a conexão com os conectores do Barabási, é provável, pois são aqueles que investem bastante na rede social). Acho que os valores buscados por esses usuários estão presentes em ambos os tipos de laço social (fortes e fracos) e que, portanto, eles estão presentes em vários tipos de tecnologias sociais.
• Attention Seekers (Usuários que buscam atenção) – São aqueles que buscam atenção dos outros, frequentemente modificando suas fotos e personalizando os perfis. Esses usuários, creio eu, são aqueles que buscam o capital de apoio social. Mais do que simplesmente trocar informações, são usuários que buscam um repositório de apoio social freqüente. Ao contrário do primeiro tipo, eu diria que no Brasil esses usuários são mais presentes em ferramentas que permitem maior interação, como os fotologs e os blogs. O Orkut, embora também permita a interação, é um site de rede social menos capaz de gerar esse tipo de apoio (proveniente dos laços fortes, obviamente) pois há um maior espalhamento da atenção entre os diversos perfis e uma maior dificuldade em acompanhar as atualizações (Feeds fazem muita diferença.) De acordo com a Ofcom, seria um tipo de usuário medianamente presente nos sistemas.
• Followers (Seguidores)– Pessoas que entram nos sites de redes sociais para continuar o contato com os amigos/conhecidos. Eu acho que esses são os late adopters de qualquer tecnologia e buscam valores como sociabilidade, reputação e complexificação das redes. Esses usuários são aqueles que percebem nos early adopters o valor da rede e que também desejam obtê-lo. Obviamente que são a maioria dos usuários e estão presentes em todo o tipo de site de rede social.
• Faithfuls (Fiéis) - Seriam as pessoas que usam os sites de rede social para reconectar com amigos do colégio, por exemplo. Concordo que este é um uso muito comum, voltado ao capital social de complexificação da rede. Mas discordo que essa seja uma categoria a parte. Para mim, esse tipo de comportamento está presente em todos os usuários, em maior ou menor grau (ao contrário da busca de atenção, por exemplo). No Brasil, é um comportamento típico do Orkut, mas não tão comum no Fotolog ou nos blogs. É um uso voltado para o resgate da rede social e o fortalecimento dos laços.
• Functionals (Funcionais) – Seria uma minoria dos usuários que tende a ter um uso, digamos, reduzido dos sites de rede social, direcionando o uso para uma função específica. Também discordo dessa categoria, pois não encontrei (ainda, ao menos) algum usuário que pudesse ser classificado aqui. Acho que mesmo aqueles que usam pouco tendem, em sua adoção, a repetir o uso da maioria. Fico imaginando se o estudo está falando dos perfis fake para spam (aí sim, seria possível), mas tenho minhas dúvidas de que os donos desses perfis não façam outros usos da rede.
Os não-usuários de sites de redes sociais, de acordo com o report, também cairiam em algumas categorias específicas:
• Concerned about safety (Usuários preocupados com a segurança) – Seriam aqueles que se preocupam em colocar seus dados na Internet, com medo de stalkers ou do uso que possa ser feito disso. É uma categoria bastante comum em váriso países (mas não tanto no Brasil, eu vejo a preocupação para com a privacidade aqui mais freqüente nos pais, por influência da mídia, do que nos usuários em si).
• Technically inexperienced (Usuários tecnicamente inexperientes) –Aqueles que não usam porque não sabem usar. (O Jeremiah Spence tem um trabalho onde ele mostra o Orkut como uma das ferramentas que proporcionou integração digital, especialmente de classes mais baixas, no Brasil, porque gerou interesse desses jovens em compreender o uso do fenômeno.)
• Intellectual rejecters (Usuários que rejeitam o sistema por motivos intelectuais) – Pessoas que não têm interesse em redes sociais e vêem esse tipo de site como uma perda de tempo. Eu acrescentaria nesta categoria também aqueles que saem do sistema pelos mesmos motivos.
Sobre os usos dos sites de rede social
O report sublinha alguns usos e aponta para outros. Vou comentar na seqüência:
#
Users create well-developed profiles as the basis of their online presence - Eu diria que todo o perfil é uma base de presença online, mas por certo que esses perfis representam uma "tomada de espaço" e ter um perfil em algum site de rede social significa tornar presente um ator e suas conexões. Eu diria que, mais do que simplesmente estar presente, há uma necessidade bastante clara de
mostrar a presença aos demais, ou seja, mais do que o uso que decorre da criação de um perfil, o próprio "estar ali" já é, por si, um valor socialmente reconhecido.
#
Users share personal information with a wide range of ‘friends’ - Acho que também é um uso esperado. Se parte do valor é "mostrar" que se está ali, obviamente que o perfil inteiro é construído para dar uma determinada impressão ao visitante (pensando no Goffman). Tenho visto que os atores são cuidadosos na impressão que querem causar e na produção do perfil como um espaço de
performance identitária.
#
While communication with known contacts was the most popular social
networking activity, 17 % of adults used their profile to communicate with
people they do not know. This increases among younger adults. Novamente, outra parte do valor da rede é ampliar a rede social, conhecer mais pessoas e ampliar laços. Jovens com redes sociais ainda em formação costumam ter mais presente essa necessidade do que adultos.
#
Only a few users highlighted negative aspects to social networking - Acho que também é verdadeiro para o Brasil.
A tabela acima sumariza alguns dos principais pontos do relatório, como os tipos de usuário, a classe social, idade e etc.
Eu acho que o principal aqui é compreender que a apropriação de um site de rede social vai além do uso unicamente para "fazer amigos". De minha parte, eu diria que os sites de rede social possuem usos mais amplos e mais comuns entre as diversas populações de atores do que o report sinaliza. Eu arriscaria dizer que, com base nas minhas pesquisas e na literatura especializada que esse tipo de ferramenta é utilizada para 1)
construir identidades específicas com busca de capital específico para cada uma delas (por exemplo, um mesmo ator pode procurar reputação em um blog e atenção em um fotolog). Além disso a construção de identidade também é voltada para a "mostração" e a construção das impressões que se deseja construir no Outro; 2)
complexificar e ampliar a rede social, que é o uso mais óbvio, conhecer novas pessoas e reconectar-se com amigos/ conhecidos antigos, sem necessariamente ter que investir no laço social para manter a conexão; 3)
construir tipos de capital social, que eu diria que é o principal valor no digital: os sites de rede social proporcionaram uma facilitação do acesso ao capital social, com menor custo e menor necessidade de investimento do que as relações offline (os benefícios, no entanto, são diferentes, é claro). Aqui entrariam todos os valores da rede: informação, busca de apoio social, reputação e etc.
Finalmente, eu acrescentaria aí a
migração da interação entre os diversos sites de rede social. O uso, pelo menos aqui no Brasil, parece mostrar uma migração da interação. Por exemplo, as pessoas se conhecem no Orkut, trocam scraps, mas vão interagir mesmo no MSN. Essas trocas também podem revelar padrões de uso diferenciados que acho que podem revelar coisas mais interessantes ainda na adoção desses sistemas e na sociabilidade online.
[14 de abril de 2008]
Tenho vários alunos com projetos bem legais que precisam de uma ajudinha para divulgar o material deles.

# O primeiro é o projeto
Maratona de Cinema da Z3. A Z3, para quem não sabe, é originalmente, uma colônia de pescadores que fica às margens da Lagoa dos Patos. O lugar é muito lindo e é por lá que circula um dos principais projetos de extensão do
Curso de Jornalismo da UCPel, que é o jornal
O Pescador, que faz parte do projeto de jornalismo comunitário do prof. Jairo Sanguiné. Bem, e daí que as alunas
Cíntia Arbeletche,
Aline Reinhardt,
Karina Peres e
Bianca Zanella pensaram em fazer uma programação cultural por lá, com uma maratona de cinema que vai acontecer no próximo final de semana (19, 20 e 21 de abril). O projeto tem
blog e
Twitter (onde vai ter cobertura ao vivo). Quem quiser dar uma força para as meninas, divulgando o projeto nos seus blogs, será bem vindo. :-)
#Outros dois projetos que eu adoro são o blog de crônicas do Marcos Leivas, chamado
Palavra de Guri. A experiência do Marcos foi criar um blog literário, super bem escrito, procurando pensar um pouco essa coisa de internet + literatura. Dêem uma olhada que vale a pena. O Marcos também tem
Twitter que ele está usando para divulgar as histórias do blog. Um segundo projeto bem legal é o blog de crítica cinematográfica do Max Cirne (
CinemaX). Ali o Max fala dos principais filmes que estão saindo. Também vale a pena conferir no
Twitter. :-)

# Outro projeto que está incrivelmente legal é o da
Operação Novelo. Não tem nada a ver com a disciplina de Jornalismo Digital, mas gurizada também está usando um
blog e o
Twitter para divulgar a campanha (além de algumas ações meio de guerrilha e de buzz no campus, que podem ser vistas no vídeo que o pessoal colocou no site). A idéia é arrecadar novelos de lã para a campanha - que depois serão transformados em roupas para o inverno para as crianças carentes da cidade. O release tá
aqui. É um projeto da disciplina de Comunicação Comunitária.
[10 de abril de 2008]
A blogosfera brasileira está em alas. A
notícia é que uma decisão do judiciário brasileiro vai bloquear o Wordpress em território nacional. Supostamente, há um processo cuja decisão proíbe o acesso a algum blog do sistema e de acordo com a Abranet (Associação Brasileira dos Provedores de Internet), o único modo de cumprir a ordem judicial resultante do processo é impedir o acesso a
todos os blogs do Wordpress.
A
Gabi Zago discutiu o assunto levantado pelo
Rogério Christofoletti, comparando essa questão com o bloqueio do YouTube, por conta do processo da modelo Daniela Cicarelli em 2007.
A decisão não só é completamente estapafúrdia, mas igualmente
reflete o despreparo dos juízes brasileiros para lidar com a questão do Direito na Internet. O Brasil não tem legislação específica para isso, portanto, trabalha com analogia de outras leis. O problema é que a maioria dos juízes, nascidos em uma época pré-Internet, acabam não tendo o preparo e o conhecimento técnico para lidar com uma nova sociedade em rede. Assim, as decisões com relação a esses elementos, que acabam gerando efeitos fabulosos e desmedidos na sociedade brasileira.
Impedir o acesso de todos os brasileiros que mantém e lêem blogs no wordpress é censura e impedimento das liberdades individuais e uma conseqüência absurda da proibição de acesso a
um blog. Aliás, a ordem de impedir o acesso já é, por si, equivocada, pois poderia ser interpretada como cerceamento do direito à informacão, garantia constitucional do
artigo 5o da CF. Do meu ponto de vista, a decisão deveria ser a solicitação da retirada do blog ofensivo do ar, feita diretamente ao Wordpress e não a proibição de acesso ao mesmo de
toda a população brasileira. Ainda é necessário, creio eu, observar qual foi o motivo da decisão judicial, na medida em que ela afeta a sociedade brasileira como um todo, cerceando a garantia constitucional do acesso livre à informação (uma vez que toda a informação do Wordpress será bloqueada, e não apenas a do blog em questão).
A Beth Saad, do Intermezzo, narrando o que estava acontecendo no
Simpósio Internacional de Jornalismo Online, falou de uma
discussão sobre a gestão de comunidades virtuais pelas redações jornalísticas. Essa discussão me interessa bastante. Acho que dois pontos são fundamentais naquilo que é levantado na discussão: Primeiro, o fato de que para construir uma comunidade é preciso investimento e essa construção tem um custo social. Depois, o que é mais fundamental, é preciso um gestor que gere espaço de interação, gerencie as trocas sociais direcionando o grupo e que esteja naquele espaço durante todo o dia. Fiquei com a dúvida se temos, no Braisl, algum jornal que trabalhe com comunidades. Alguém sabe?
[08 de abril de 2008]

Ontem recebi via Twitter um
artigo do IDG Now!, escrito pelo Guilherme Felitti, que falava sobre a questão da monetização dos sites de redes sociais. O artigo explica que ainda não se sabe como fazer isso direito, e fala das várias tentativas fracassadas que já foram realizadas por muitas empresas. Lendo, pensei em dar o meu pitaco e tentar discutir um pouco como eu vejo essa questão. (Lembrando que não sou publicitária, vou tentar "criar" um espírito publicitário... hehehe)
Acho que um dos primeiros passos para entender os sites de redes sociais é compreender
a apropriação que é realizada pelas pessoas. Eu diria que, de um modo geral, temos três tipos de apropriações, a partir dos
valores que as pessoas buscam construir na rede. Para exemplificar melhor, tomarei o caso do Orkut, que todo mundo conhece:
1) Apropriações Sociais - São todas as apropriações que têm como objetivo melhorar, ampliar ou complexificar o processo de interação com o Outro. Dentre essas apropriações, por exemplo, poderíamos identificar o uso do "scrapbook" (originalmente, um livro de recados) para conversações não apenas com o dono do perfil, mas também com as demais pessoas. Outra apropriação interessante é o uso do "testimonial" para recados urgentes ou importantes, onde o ator já diz "não aceita".
2) Apropriações Identitárias - Embora sejam parentes das apropriações sociais, como elas são muito presentes nos sites de redes sociais, criei um item a parte. Essas apropriações são essenciais para a construção de uma persona e para a individualização de um perfil. São elas que permitem que os usuários possam ser reconhecidos como atores e interagentes. Logo, as pessoas tendem a personalizar ao máximo seu perfil, de todas as maneiras possíveis. No Orkut, poderíamos identificar o uso das comunidades para construir "gostos" nos perfis, por exemplo. Outra apropriação seria o uso de desenhos em ASCII no perfil ou mesmo a mudança do nome que identifica o mesmo.
3) Apropriações Profissionais - São aquelas mais voltadas para a construção de reputação ou de outra forma de capital social. Mais do que interagir, o ator pretende criar uma impressão nos demais. Mais do que construir uma identidade, ele pretende obter valor da rede social.
Essas três categorias (no fundo, todas são obviamente sociais, mas a divisão é apenas para ajudar a pensar) podem auxiliar a compreender um pouco mais meu ponto. Sabendo que há padrões de uso nesse sentido (e que esses padrões podem ser vistos em vários sites de redes sociais), penso que as estratégias de monetização deveriam emergir dentro das apropriações que os atores da rede criaram.

Um exemplo seria
a criação de gadgets patrocinados. Tanto o Orkut, como o Facebook, estão abrindo sua arquitetura para isso. No FB, onde a coisa é mais popular, vejo inúmeras possibilidades de monetização através da criação de joguinhos, testes (muito populares no sistema) e gadgets divertidos que são utilizados para a personalização dos perfis (já é feito, mas pouco) e que permitem que eu me compare aos meus amigos. Essa estratégia fala diretamente às apropriações identitárias e sociais. Aproveita-se delas para associar a marca ao capital social produzido pelos atores na rede (por exemplo, ao enviar o jogo divertido aos amigos). Além disso, as aplicações criadas podem falar diretamente às necessidades dos usuários (imagino algo que permita "conversar" no Orkut ou personalizar mais o perfi).
Outro exemplo seria a
criação de grupos e comunidades patrocinadas, onde o moderador proporciona a discussão, organiza encontros offline e mesmo sorteia brindes. A simples criação comunidade não adianta, é necessário investimento nela e nos atores que fazem parte da rede. Conteúdo é fundamental, bem como uma genuína preocupação para com a comunidade (mais do que para com a propaganda, por exemplo). Nesta mesma linha, vai o apoio à comunidades que lutam, por exemplo, contra o câncer, ou contra a pedofilia na rede. Aqui, o objetivo é associar à marca com uma ação com capital social positivo construido pelos atores, que pode repercutir na marca e divulgá-la ainda mais (por exemplo, em blogs e fotologs). Essa ação também está voltada para as apropriações sociais e profissionais da rede (uma vez que, o ator também trabalha com reputação ao associar-se a uma comunidade destas).
Um terceiro exemplo, ainda, seria não usar o site como plataforma de promoção, mas como modo de identificar, digamos, influenciadores. Foocando em grupos específicos, dentro de comunidades temáticas ou identificados através de gostos pessoais, seleciono atores que preenchem determinados pontos para promover o produto através da valorização do usuário. Penso, por exemplo, no convite ao lançamento do produto. Imagino a identificação dos usuários mais ativos de uma comunidade de cinema, por exemplo, e convidá-los para uma pré- estréia. A expectativa aqui é gerar um buzz na rede social e penso que essa estratégia é melhor aplicada em conjunto com outras formas de promoção. Aqui, estou falando à apropriação social e profissional de novo, uma vez que valorizo o ator convidado.
Essas idéias são todas comuns. O ponto essencial é que a estratégia deve ser
bottom-up e não o contrário. Acho que é preciso identificar os usos, o papel dos atores e só depois, estabelecer a estratégis. E mais que isso, é necessário pensar uma abordagem qualitativa, focada no indivíduo e não quantitativa, focada na massa. Por fim, acho que é preciso cuidado para não exagerar, criando o efeito oposto ao que se pretende (lembrando que a propaganda não é geralmente bem vista pelos usuários desses sistemas). Assim que estratégias
não intrusivas costumam ser melhores, na minha opinião, do que aquelas em que o ator não tem escolha se vê ou não.
[03 de abril de 2008]
A
International Conference on Weblogs and Social Media (ICWSM) já disponibilizou
no site os papers que serão apresentados no evento. Eu morro de vontade de participar dessa conferência desde que foi criada (a deste ano é a segunda edição), mas nunca consigo mandar paper na época certa (sempre no final do ano, pegando a época mais "punk" de notas e afins). Ainda é uma conferência pequena, mas é a primeira focada na coisa da Mídia Social e das ferramentas que trabalham isso.
Ainda sobre o ICWSM, o
Read Write Web comentou um dos painéis que foi apresentado, sobre Identidades no Facebook. O estudo mostrou que os perfis nessas ferramentas podem dar aos amigos e conhecidos uma falsa percepção da personalidade dos autores. Ao contrário, respostas como os livros que se gosta ou músicas favoritas parecem ser menos eficientes do que contar uma história, como "momento mais embaraçoso".
Psychology professor Samuel Gosling and collaborator David Evans created the "You Just Get Me" Facebook application and web site, where users could answer forty questions about their personality and then compare their answers to how others view them. The users would rate each other based on these answers, letting their first impressions be their guide. People could be rated as anything from lazy to ingenious to quiet or rude or any of several other unique personality traits.
Surprisingly, answers to most of the basic type of questions, like those found on social networking sites, did not help users figure out what each other were "really" like. Instead, the researchers found that when a user posted things on their profile like their most embarrassing moment, proudest moment, or spirituality, their personalities were much better understood.
Acredito que mais do que o que está escrito nos perfis como gostos pessoais, o que mais auxilia a construir uma idéia da personalidade por trás do perfil são os outros elementos. No Orkut, por exemplo, sabemos que as comunidades são mais utilizadas para conhecer a personalidade do usuário do que os gostos e desgostos do perfil. Além das comunidades, as interações nos comentários e nos testemunhos e as fotografias também são utilizados pelos usuários para "conhecer" ou "saber mais" do Outro. No Facebook, ao que parece, é a escolha de APIs adicionados pelos usuários, além das interações e ações dos usuários.
Esse tipo de discurso, que é construído através da linguagem falada e escrita, e que é gerado pelas conversações com outros, é o principal pedaço da construção da identidade nas redes sociais. É na falta dos diferenciais característicos da estrutura dos discursos (falado e escrito), e na intersecção de ambos com os elementos gráficos dispostos por essas ferramentas que se constrói uma impressão dada que vai ser, ao mesmo tempo, também emitida (para citar o Gofflman). É uma identidade ao mesmo tempo construída e percebida, como mostra o estudo do Facebook.
A construção de um perfil, realizada por um autor, é realizada com objetivos e motivações particulares, geralmente focadas no capital social que esse perfil é capaz de construir: reputação, sociabilidade, fama etc. Mas como nem todas as impressões e expressões são controladas, mas interpretadas pelos demais, há discordância entre o discurso que o emissor pensa que está construindo e aquele que o receptor interpreta. :-)
Esses são apontamentos gerais de impressões a respeito do estudo do Facebook e dos meus trabalhos. Além disso, fazem parte de uma discussão que pretendo iniciar com um projeto a respeito de discurso e interação pela linguagem, na Lingüística Aplicada. :D
A
Adri deu a notícia ontem e eu estava esperando para publicar: Finalmente saiu a chamada de trabalhos para a ALAIC 2008. Este ano, o encontro será no México (Cidade do México), de 9 a 11 de outubro. O prazo para envio de trabalhos começa no
dia 15 de abril e se encerra no dia
10 de agosto. Informações sobre os GTs, os requisitos dos trabalhos e prazos podem ser encontradas no
site do coordenador do GT de Internet y Sociedad de la Información y Cibercultura, prof. Octavio Islas. Não diz nada na chamada de trabalhos, mas a ALAIC costuma aceitar trabalhos em português ou espanhol para a apresentação nos GTs. Outras informações estão no
site da ALAIC.