[02 de julho de 2009]

Hoje li dois ótimos artigos. O primeiro, do Scott Berkun,
"Calling bullshit on social media" faz uma violenta crítica ao hype da chamada "mídia social", ou ainda, o uso das redes sociais na Internet como formas de mídia. A resposta, di Joshua-Michéle Ross, no O'Reilly Radar,
"In Defense of Social Media" desconstrói alguns dos argumentos de Berkun e apresenta outros. Há uma discussão interessante aqui, que pensei em interferir escrevendo meus "dois centavos".
Mídia social é hype?
É claro que é. Como tudo o que é novo e que não compreendemos integralmente, é popular. Mas entendendo mídia social como essa articulação de difusão de informação nas redes sociais online, há uma diferença fundamental. Embora o Berkun afirme que redes sociais sempre existiram, a novidade é a conectividade. Graças à rede,
as pessoas estão mais ubiquamente e permanentemente conectadas. Recebem mensagens o tempo todo, articulando suas redes sociais. Esse potencial de difusão de informação é novo, é decorrente dos artefatos técnicos e proporciona uma articulação social nova. Isso sim proporciona novas formas de interação (para mais sobre isso, leiam o
Alex Primo). E mais do que novas formas de interação, temos novas formas de conversação, diálogos assíncronos, migrantes. A tecnologia
potencializa a conexão das redes sociais, evidenciando, assim, todo um poder de articulação que ainda nos é desconhecido. Isso tudo porque não podemos esquecer do básico:
Essas redes sociais não são desconectadas do mundo offline. Portanto, as ações decorrentes da difusão de informações nessas redes têm efeito no mundo concreto.
Os exemplos são inúmeros. Ontem mesmo, o
Jorge Araújo relatou um caso que foi comentado, discutido e levado à mídia tradicional via redes sociais online: o caso do cãozinho que foi covardemente morto a pauladas. O fato muito me lembrou o caso da cadela Preta, acontecido há alguns anos, que também foi difundido via redes sociais online (principalmente, Orkut e blogs). Diferentemente deste, no entanto, o novo caso foi difundido via Twitter, que por conta de seu forte caráter síncrono, provocou efeitos mais rápidos (ontem já estava em vários telejornais).
Mídia Social é dinâmica
As redes sociais são
dinâmicas, compostas de pessoas, que têm interesses próprios e coletivos, interesses esses que podem ser alterados com o andar da maré. Essas redes na Internet são coletivos, que podem trabalhar em grupo e onde pequenas ações podem reverberar de forma maior que a esperada. Assim, é muito difícil prever como essas redes vão responder às informações. Algumas vezes, as pessoas podem articular-se, outras não. Algumas vezes podemos ter efeitos focados apenas no espaço online e, em outras, podemos ter efeitos que perpassam outras esferas da sociedade (como
os protestos com relação ao "AI-5 Digital").
É por isso que o termo tem despertado tanto interesse de várias esferas da sociedade.
A complexificação dos espaços de informação tem efeito na vida dos indivíduos, tem efeito na sociedade e não sabemos bem que efeitos serão esses. Lembro que há bem pouco tempo, dizia-se que o Orkut era hype e que não precisávamos estudá-lo. Hoje temos uma pequena idéia dos efeitos que o Orkut está tendo na sociedade brasileira tanto em termos positivos quanto em termos negativos. Hoje, já não pensamos com tanta certeza que o Orkut é apenas um fenômeno momentâneo. Hoje, trabalhos sobre o Orkut já não são mais vistos com tanta desconfiança. O termo já se tornou coloquial na sociedade e freqüentemente estampa matérias jornalísticas em vários meios. Depois do Orkut, outras tecnologias começaram a atingir os olhos da sociedade. As práticas sociais no Fotolog, por exemplo, que já foram extremamente cotidianas no dia a dia de milhares de jovens brasileiros, começam a ser novamente observadas. O próprio Twitter, ainda pequeno, também ganha atenção.
O fato é que estamos vivendo um período de mudanças. E para entender os efeitos de curto, médio e longo prazo dessas mudanças, é preciso estudá-las, observá-las e testá-las. E assim, para todos os profissionais e estudantes que tangenciam a esfera da comunicação,
entender a "mídia social" além do hype, é fundamental.
[28 de junho de 2009]

Recentemente, a
danah boyd, o
Scott Golder e o Gilad Lotan
disponibilizaram um rascunho do artigo "Tweet, tweet, retweet" para comentários, analisando os aspectos conversacionais dos retweets. Para os autores, o retweet não é só um ato conversacional, mas uma forma de difundir informações e engajar-se na conversa, mesmo sem se estar efetivamente contribuindo para a mesma.
RTs são conversacionais?
Quando alguém retwita alguém, há uma menção ao autor do tweet original. De uma certa forma, essa referência poderia ser considerada conversacional. Mas será que o autor da referência sente-se parte da conversa? Será que ao fazer um RT estamos realmente adentrando uma conversação? De uma certa forma, parece-me que não, pois quase sempre as redes de seguidos e seguidores não são inteiramente coincidentes junto aos twitters. Talvez possamos considerar que os retweets são modos de iniciar um outro diálogo, junto à rede de seguidores que alguém tem. Mas tenho dúvidas que possamos considerar um RT como uma forma de entrar em uma grande conversa onde não há retorno e não há diálogo.
RTs são formas de difusão de informação?
Retweets são formas de difundir uma informação que alguém considera relevante. O crédito ao autor da mensagem é uma forma de angariar também um pouco de credibilidade para o que se publica. Ao retwitar alguém, dá-se um pouco de credibilidade à informação na rede do autor original e, ao mesmo tempo, recebe-se as benesses de trazer algo que seja considerado relevante para sua própria rede no Twitter. Assim, o RT não é só uma forma de difundir informações, mas de construí-las como informações relevantes.
RTs são focados em capital social?
Do meu ponto de vista, sim. Parece-me que o retweet é uma prática que engloba um forte aspecto econômico. Ao dar-se RT a alguém, dá-se poder e valor àquele ator. Ao mesmo tempo, recebe-se poder e valor quando a rede social recebe a informação, pois somos considerados relevantes. Há, assim, uma prática econômica. Enquanto algumas vezes retwitamos amigos para dar-lhes visibilidade, outras vezes, escolhemos informações que consideramos que nossos seguidores ainda não têm. Outras vezes ainda, escolhemos meramente informações novas. E por fim, selecionamos também informações que estão em nosso espectro de interesse e que, acreditamos, também estarão naquele dos seguidores.
A Economia do Twitter
Assim, não estou totalmente convencida que os RTs tenham um forte componente conversacional. Ao contrário, parecem-me focados em outros aspectos, como a difusão de informações, o capital social e a estrutura das redes sociais. Há uma economia no Twitter, que reflete valores como seguidores, seguidos e retweets. E essa economia parece ser baseada em valores de troca como RTs, seguidores e referências (@s). É por causa dessa impressão que julgo o Twitter sempre com menor valor conversacional. Não que a conversação não exista, existe. Mas também é submetida aos valores de troca que estão sendo criados na ferramenta. Responde-se para ser citado. Cita-se para ser respondido. O valor é a visibilidade na rede. Retwita-se para receber credibilidade e relevância. Muitos retwittam para mostrar que foram citados. Queremos credibilidade e relevância para ter nossa própria audiência particular. Como eu disse, há muito tempo, em uma palestra: o Twitter parece ser a ferramenta mais semelhante ao broadcast que temos na Internet. Uma coisa é certa: o Twitter apresenta redes sociais em mutação, com apropriações cada vez mais semelhantes e, ao mesmo tempo, com idiossincrasias próprias.
[20 de junho de 2009]

Nos últimos tempos, depois de praticamente 4 anos trabalhando muito no Orkut, tenho focado outros sites de redes sociais. Dois deles têm chamado minha atenção de modo especial: o
Facebook e o
MySpace.
O Facebook ganhou mercado com a espertíssima idéia de abrir o sistema para a construção de
aplicativos por terceiros, coisa bastante ousada para alguns anos atrás. Trata-se não apenas de deixar que outros desenvolvam para a plataforma, mas igualmente, que outros ganhem dinheiro com o sistema deles. O desenvolvimento de aplicativos foi certamente um dos grandes motores por trás da popularização do Facebook. Os aplicativos, que vão sendo cada vez mais diferenciados, mantêm a atenção e o valor do site, gerando interesse dos usuários por manter a conta. Uma imensa quantidade de usuários entra para conhecer os jogos, para responder quizes e por recomendação de amigos. Isso porque a maior parte dos aplicativos do FB é social, ou seja, só tem "graça" se seus amigos também participarem. Além disso, alguns dos aplicativos do FB são surpreendentemente bons e bem feitos, o que, por si só, agrega valor.
O MySpace, por outro lado, decidiu investir principalmente
na segmentação. Assim, de site "adolescentóide" como chegou a ser tratado nos EUA, virou um sistema voltado para a música, onde todas as bandas querem estar e onde os fãs podem ouvir as músicas, comentá-las e conhecer outras pessoas. O foco na música foi uma jogada muito interessante porque também gerou um interesse diferenciado na ferramenta. Há muitos usuários de várias idades, que apenas fizeram suas contas para "ouvir música" ou para ajudar suas bandas favoritas. Além disso, o MySpace congrega várias ferramentas de informação, o que valoriza a atualização dos perfis.
Nesse sentido, acho que as duas ferramentas
inovaram, ultrapassando o Orkut em termos de
manutenção do interesse social. Mesmo com a implementação tardia do Open Social, o Orkut não conseguiu correr atrás do Facebook na questão dos aplicativos. Assim, esses sites têm hoje desafios completamente diferentes. Enquanto o Facebook cresce a olhos vistos, enfrenta os problemas de seus milhares de aplicativos com notificação: o spam social. Com a complexificação da rede (quanto mais atores entram no sistema, mais densa torna-se a rede, pois há novas conexões e proximidade), as notificações começam a ficar exageradas e já é comum observar a irritação das pessoas com convites/informações/ mensagens automáticas do Facebook. O Myspace, por outro lado, precisa inventar modos de facilitar a interação social. Isso, do meu ponto de vista, passa pelo velho problema da interface. Vejam, não é que o sistema não tenha conteúdo interessante: tem, mas é difícil de encontrar e nem todo mundo gera por não saber como fazer.
De uma certa forma, a falta de inovação para a manutenção do interesse social parece ser um problema sério para o Orkut. Sem motivo para que as pessoas acessem, a tendência é que o tráfego vá caindo e que as pessoas, por fim, acabem por deletar seus perfis. Não estou dizendo que o Orkut não é utilizado. Mas o trabalho com os usuários parece apontar sim para uma falta generalizada de interesse na ferramenta. Antes, era comum que os informantes comentassem que entravam 4, 5 vezes por dia na ferramenta. Hoje já entram bem mais raramente (1 vez a cada 2, 3 dias). A maioria também parece ter a percepção de que o sistema está "parado" e que as pessoas atualizam pouco seus perfis. Isso indica que há um desinteresse, e que os usuários passam a procurar outras ferramentas que apresentem algum diferencial. Resta ver qual será a estratégia do Orkut para se reposicionar (ou não).
[13 de junho de 2009]

A partir da madrugada de hoje, já é possível registrar URLs com o seu nome/apelido no Facebook. A notícia, que foi propagada aos quatro ventos durante toda a semana ampliou o seu impacto e iniciou uma corrida pelo registro dos usernames. Acompanhando pelo Twitter, o Facebook tornou-se um dos trending topics, não apenas com pessoas registrando seu nome, mas igualmente de gente reclamando que não tinha conseguido um registro satisfatório.
A decisão do Facebook, de permitir "URLs de vaidade" (www.facebook.com/teunome) é complicada. Primeiro porque toca numa questão fundamental: a
construção da identidade no ciberespaço. Segundo porque provoca uma nova necessidade de registro de um nome para
garantir a presença. A questão da identidade virtual já foi trabalhada por muitos pesquisadores. De uma forma geral, a mediação da Internet impede que se tenha um contato direito, no processo de comunicação, com aquilo que nos é mais individual, nossos corpos. No entanto, saber com quem se está interagindo é crítico para o processo de comunicação. Com isso, na Internet, a construção da identidade é fortamente caracterizada pela personalização e pela performance, como formas de exagerar a presença e a individualidade. Essas práticas tomam muitas formas, como a construção de perfis, de linguagem característica, de fotografias e, também, pelo
uso de um apelido ou nome.
Assim, por permitir que as pessoas registrem os apelidos, o Facebook torna a construção de identidade uma comodity, onde o registro do nickname pode ser uma forma não apenas de garantir a identidade, mas de comprá-la e vendê-la. Deste modo, muita gente foi ao registro apenas para "garantir" seu username e impedir que outros o registrem e utilizem, e não porque considera interessante utilizá-lo. A corrida pelo registro no sistema, assim, não é medida do impacto que ele tem, mas simplesmente, da necessidade de garantir a presença no ciberespaço.
Outras leituras sobre identidade:
Repositório de artigos recomendados do Daniel Chandler.
[09 de junho de 2009]
O
Augusto de Franco, responsável pela Escola-de-Redes escreveu um texto excelente sobre "O Poder nas Redes Sociais", onde ele defende que o conceito de poder não é aplicável para as redes sociais ("poder é uma medida de não-rede") e que as redes são "movimentos de desconstituição de hierarquia". Para quem se interessa pelo assunto das redes sociais na Internet, vale a pena ver aquilo que o Augusto defende.
Ele também está organizando várias iniciativas interessantes, como um Simpósio sobre Redes Sociais e um Simpósio sobre a
Escola de Redes, que vai acontecer em breve, em São Paulo. Confiram. :)
[08 de junho de 2009]
Ando com pouco tempo para o blog. Semana passada, o livro foi lançado na Compós, em Belo Horizonte. Amanhã, é o lançamento aqui em Pelotas (RS), às 18h, na Livraria Vanguarda. Apareçam!
[28 de maio de 2009]

A partir desta semana, já esta a venda nas principais livrarias do país o meu livro
Redes Sociais na Internet, que saiu pela
Editora Sulina, na coleção
Cibercultura. O livro é fruto de uma parceria com a
Cubo.cc, que está cuidando do
site do livro (que vai sair em breve), onde vai ter, também,
uma versão PDF para download (free) e um
aplicativo para iphone. A versão impressa, para quem desejar comprar, custa 30 reais e o livro tem 191 páginas.
Esse livro é parcialmente fruto do trabalho da minha tese de doutorado mas, não apenas dela, também de várias pesquisas que desenvolvi sobre redes sociais nos últimos anos. O livro está dividiro em duas partes. A primeira é focada na discussão teórica do que são e como podem ser estudadas as redes sociais. A segunda é focada em algumas aplicações do conceito.
Parte 1: Redes Sociais na Internet
Os elementos das redes sociais na Internet
Tipologias de redes sociais na Internet
Dinâmicas de redes sociais na Internet
Parte 2: Aspectos do Estudo das Redes Sociais na Internet
Tipos de Redes Sociais na Internet
Sites de Redes Sociais
Difusão de Informação em Redes Sociais
Comunidades em Redes Sociais
É um livro acadêmico, é claro, mas tentei fazê-lo de forma que ficasse acessível a todos aqueles que têm interesse no estudo das redes sociais. A apresentação do livro foi feita pela colega e amiga Suely Fragoso (Unisinos) e a orelha escrita pelo
André Lemos (UFBA).
[27 de maio de 2009]

Ontem o
Bitácoras divulgou um
mapa do "Estado da Blogosfera Hispânica", abordando, além da Espanha, é claro, os países que falam espanhol. Alguns dados bem interessantes, como por exemplo, o fato de que depois da Espanha (que de acordo com o relatório, concentra mais de 50% dos blogs de língua espanhola), os países que mais têm blogueiros são, na ordem: Argentina, México e Chile. Outro dado interessante, os blogueiros são mais velhos (25-34 anos é a faixa etária que mais concentra blogueiros ativos). Finalmente, o tópico "pessoal" de novo, aparece como aquele que mais concentra (de longe - 34%) as postagens dos blogueiros, embora não seja o tópico mais valorizado). Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de que
53% dos blogueiros utiliza o Twitter.
Esse resultado coincide diretamente com o que eu e a
Gabriela Zago mostramos na pesquisa do Twitter no Brasil:
77% dos participantes da pesquisa, além de Twitter, tinham blog. Claro que seria preciso explorar melhor essas relações mas vou dar alguns pitacos que me parecem pertinentes a respeito das duas pesquisa.
Inicialmente, as duas pesquisas indicam
uma forte relação entre os blogueiros e o Twitter. Isso poderia sugerir que a audiência do Twitter ainda é focada em pessoas que já estão online (ou seja, o Twitter não seria, como o Orkut no Brasil, uma "porta de entrada" para o mundo virtual, mas um complemento a outras ferramentas já existentes). Também poderia indicar que
a audiência do Twitter está mais focada em um
público mais especializado, que também utiliza outras ferramentas informativas - como os blogs. Isso me parece reforçar a idéia de que os usuários do Twitter estão concentrados em
um nicho focado na especialidade da mídia online, ou seja, os chamados
heavy users. Essas relações possíveis poderiam sugerir que o Twitter é uma ferramenta de especialidade, provavelmente focada em três pontos relevantes para os blogueiros:
- Servir como fonte de informações que serão discutidas nos blogs, ou seja, auxiliar a alimentar o blog com notícias e novidades (um dos ítens mais valorizados pela audiência dos blogs na pesquisa do Bitácoras). Aqui, o Twitter funciona também como uma ferramenta de feeds qualificada - não se recebe só a informação, mas também os comentários e discussões sobre a mesma, o que auxilia na percepção do blogueiro do que vale a pena discutir e do que não vale.
- Servir como medida de feedback, auxiliando os blogueiros a seguir conversações e perceber algum tipo de impacto daquilo que publicam em seus blogs. Muitos parecem, também, usar o Twitter como forma de comentário síncrono, ou seja, explicitando o que acharam de algum texto de blog e discutindo com os comentaristas.
- Finalmente, servir como forma de divulgar o blog e as novas postagens. Tweets que explicitam quando um blog foi atualizado e que tipo de texto foi colocado lá também parecem ser extremamente populares. Neste caso, o Twitter funciona como uma ferramenta de feeds instantâneos também, ajudando a divulgar aquilo que está sendo publicado no blog.
Esses usos são relações que tenho observado empiricamente no trabalho sobre o Twitter e é claro que não aparecem na mesma medida em todos os twitters que são blogueiros. Mas a idéia foi sugerir
algumas relações entre aquilo que observei em campo e os dados concretos das pesquisas. Acho que esses três grandes usos, de uma certa forma, relacionam o uso do Twitter com os blogs e mostram como essas ferramentas têm atuado de forma complementar na Internet. Isso também parece indicar que ao invés de tentar inventar mashups do Twitter com sites de redes sociais como o Facebook, talvez um caminho interessante fosse focar mashups do
Twitter com os blogs.
[21 de maio de 2009]

Um dos problemas que vem emergindo com o aumento do número de usuários e pageviews do Twitter é o spam. Recentemente, spammer conseguiram atingir os "trending topics" da ferramenta e começaram a atuar de forma mais forte. E o que é mais importante (e mais preocupante):
os spammers estão aprendendo a usar o sistema e as apropriações para proveito próprio.
Uso das Tags e Hastags
Ontem, acompanhando o streamming da
final do American Idol, por exemplo, era possível observar uma enorme quantidade de contas spammers utilizando as tags para do programa para anúncios. Reparem que esse tipo de spam pressupõe que as pessoas estarão buscando utilizar o Twitter como
ferramenta informativa e que estarão, portanto, lendo os tweets do streaming para acompanhar o que os demais estão falando do assunto que interessa. A apropriação das tags para spam é uma ação de difícil controle, especialmente se o spam for eventual, como parece ter acontecido. Mas o uso de tags populares para marcar mensagens publicitárias também parece estar acontecendo em várias instâncias de tags populares. Em quase todos os
trending topics é possível encontrar, além das mensagens dos usuários, uma grande quantidade de spam.
Uso das @s
O uso de nomes da rede do Twitter para mensagem publicitária também está acontecendo. Recentemente, deparei-me com vários replies utilizando um @raquelrecuero que não tinham absolutamente contexto nenhum. Ao entrar no perfil (fake, óbvio), percei que era um spammer utilizando um script que ia percorrendo a rede de seguidos de várias pessoas, largando o mesmo spam como um reply para cada membro da rede. Reparem que essa lógica utiliza, justamente, as práticas conversacionais e sociais do Twitter. Afinal, todos costumamos chegar as @s como forma de acompanhar comentários a respeito dos tweets e mesmo, responder a conversações em andamento.
Centralidade na Rede
Mesmo que os perfis spammers não tenham seguidores, ao aumentar sua rede de seguidos, eles conseguem maior centralidade na rede. Ou seja, quanto mais gente um perfil spammer segue, mais acesso à rede do Twitter ele tem, seja para utilizar as @s, seja para interferir nos tópicos de discussão. Reparem, por exemplo, que recentemente o Twitter resolveu que só as @s lançadas dentro da mesma rede são visíveis para
o usuário (ou seja, só quem está conectado a você ou a seus amigos tem suas menções visíveis). Com isso, exigiu-se que mais perfis fakes ou spammers conectem-se a outras pessoas e que, das milhares que seguem, sejam seguidos também por alguns incautos. Com essas conexões, esses perfis se tornam mais visíveis e são mais capazes de interferir no Twitter.
Os problemas
O Twitter está numa situação delicada. Como os spammers estão usando a própria lógica da rede para interferir nela,
tornam muito difícil o controle por parte da ferramenta pois, ao tentar impedir o spam, o Twitter pode impedir usos cotidianos de não-spammers. Foi o que aconteceu com a
limitação de visibilidade, por exemplo. No entanto, se o spam nas tags, por exemplo, começar a aumentar muito, aumenta o ruído e a dificuldade de acompanhar a linha pública do Twitter. Com isso, um dos maiores valores da ferramenta, aquele informativo, começa a sofrer as conseqüências e pode sim deixar de ser usado por conta do investimento necessário para passar a barreira do spam. Vimos isso acontecer com as comunidades do Orkut, outro exemplo. Ao mesmo tempo, o spam das @s também é potencialmente perigoso. Isso porque o ruído, se aumentado, compromete a visibilidade das mensagens relevantes, também afetando a utilidade da ferramenta.
As possíveis soluções
Pensar numa forma de solucionar o spam é sempre difícil. Penso que deixar todo o trabalho para os usuários, como fez o Orkut, é complicado porque aumenta o investimento de tempo que esses deverão ter na ferramenta, o que pode reduzir o uso e o spam crescer. Ainda assim, é importante que esses participem.
Agilizar uma equipe de combate, proporcionar formas para que os próprios twitters coloquem tags em tweets de spam, fiscalizar perfis fakes e manter um olhar rígido nos trending topics são algumas das estratégias que a equipe deve estar considerando. Mas é importante que essas estratégias sejam implementadas logo. Se o spam sair de controle, a ferramenta começa a perder valor.
[17 de maio de 2009]
Algumas informações interessantes que pesquei na rede nos últimos dias.
# O
Boing Boing mostra um gráfico feito pela Meg Pickard no The Guardian
falando dos trends (tópicos) no Twitter. Interessante comparação dos usuários que falam do #topico e aqueles que falam de quem está falando do #topico e contribuem para o buzz. Bastante interessante para pensar sobre o quanto de uma informação está realmente sendo relevante (lembrando que muitas das pessoas que retwitam algo não necessariamente leram aquela informação) no sistema.
# O
Christofoletti explica porque os
jornalistas devem ler a "Cultura da Convergência" do Henry Jenkins. Eu diria para lerem o
blog do Jenkins também, muita coisa muito boa.
# A
danah boyd responde algumas perguntas feitas sobre os adolescentes e o Twitter. Impressões bem interessantes, especialmente porque ela afirma que
os adolescentes, nos EUA, não usam a ferramenta, pois não enxerga valor. Eu já discuti aqui que o Twitter não tem uma valoração individual facilmente perceptível, daí a dificuldade da adoção pelos jovens, mais focados na conversação e na sociabilidade. Acho que vale a discussão.
# O
Caribé convoca todo mundo para uma blogagem coletiva contra o AI5 Digital no
Mega Não!. Essa semana que passou, o evento em Sampa atraiu a atenção da mídia e das lideranças, inclusive do Ministro da Justiça, que se manifestou publicamente contra o projeto. Leiam mais lá.
Finalmente, estou com muito trabalho e pouco tempo para responder os comentários do blog e as mensagens pedindo coisas no Twitter. Quem quiser entrar em contato, por favor,
envie um e-mail. Talvez eu demore um pouco para responder, mas respondo. :-) (E-mail ali na coluna da direita também).

Desde 2005 eu venho escrevendo sobre a importância do estudo do capital social para compreender as redes sociais na Internet. Por que? Defendo que o valor social da adoção de determinados comportamentos e tecnologias é sempre levado em conta pelos atores das redes sociais para determinar seus próprios comportamentos. Por conta disso, vou fazer alguns apontamentos sobre coisas que venho pensando atualmente.
O
conceito de capital social, no entanto, é algo
complexo e cheio de meandros. De um modo geral, os teóricos que trabalham com a idéia focam o conceito como produto do pertencer a um grupo (rede) de atores (Bourdieu, por exemplo) e aqueles valores que dali decorrem. Ou seja, todos os valores decorrentes da associação com um grupo seriam considerados capital social (o que, de certa forma, deixa o conceito um tanto o quanto abstrato). Embora várias tentativas de operacionalizar o conceito tenham sido feitas (vide Bertolini e Bravo, por exemplo), não há uniformidade na literatura quanto a isso e, muitas vezes, o capital social se confunde com o capital humano. O que é um tanto o quanto esperado, uma vez que os valores que os indivíduos carregam podem tornar-se valores da rede quando estes estão associados. Por exemplo, vamos imaginar que temos um ator com grande conhecimento em uma determinada área. Esse conhecimento passa a ser acessível a outros atores quando aquele torna-se parte da rede. Outro problema comumente discutido são as formas de apropriação desse capital. Enquanto para uma corrente o valor é unicamente social e só pode ser apropriado enquanto social, para outra, o capital social pode ser apropriado pelos atores e transformado em outras formas de capital (vide a discussão que Lin faz).
Formas de Apropriação do Capital Social em Redes Sociais na Internet
No meu trabalho, tenho procurado mostrar que as motivações dos atores para usar a tecnologia passam também por essas percepções e que a apropriação individual dos valores sociais é uma dessas formas. Assim, as formas de capital social que um ator vê na rede podem influenciar seu uso e sua adoção da tecnologia que a proporciona. Procurando discutir um pouco como esse capital social pode aparecer em redes sociais na Internet, temos alguns valores que são comumente referenciados. Vou fazer aqui uma tentativa de sistematizar esses valores.
- Valores Relacionais: São aqueles relacionados com a construção da rede em si. Estão focados em criar, aprofundar e manter os laços sociais. Essas formas de capital social são importantes porque auxiliam na manutenção da estrutura social.
Esses valores podem ser apropriados pelos atores de várias formas. Por exemplo, um ator que subverte o funcionamento da rede para se tornar popular está apropriando o capital social relacional (
centralidade). Com isso, o ator consegue tornar-se mais central na rede (tornar-se um conector). Vemos isso acontecer com freqüência no Orkut. Outro exemplo, diferente, é o caso das trocas de links no Fotolog ("me add que eu te add"). Neste caso, os atores negociam as ações, de forma a tornar-se mais visíveis com a cooperação dos demais (
visibilidade). Outra forma de valor relacional apropriado é ainda o uso das ferramentas tecnológicas para manter ou recuperar os laços sociais (como Ellison, Steinfield e Lampe defendem no seu artigo sobre o Facebook). Aqui, vemos que os atores utilizam a ferramenta para manter uma rede social que, de outra forma, não poderia ser facilmente mantida (
manutenção).
- Valores Informacionais (ou cognitivos): São aqueles relacionados com aquilo que circula na rede, mas que não estão diretamente relacionados com sua manutenção. Essas formas de capital social são importantes porque fazem circular os valores na estrutura social e só pode acontecer quando a primeira forma de valor está presente.
Esses valores também podem ser apropriados de formas diferentes. O empenho de um determinado ator em obter informações e divulgá-las a sua rede social, por exemplo, enquanto foca esse tipo de valor traz para o ator
reputação. Vemos isso com mais clareza nos usos do Twitter e dos blogs. O gerenciamento dessas informações que circulam, proporcionado pela mediação tecnológica, também pode acarretar em modos de criar
identidade e identificação para os atores (muito comum no Fotolog). Através da reputação, este ator pode ter acesso a outras formas de capital. Outro modo de apropriar esse tipo de capital é obter as informações importantes através da consulta à rede (
conhecimento).
O Capital Social na Internet
Essas apropriações não são independentes. Enquanto as do primeiro grupo são facilitadas pela mediação tecnológica, as do segundo são unicamente decorrentes dos modos de gerenciar as primeiras. Com isso, quero dizer que a
mediação da Internet parece permitir formas de apropriação do capital social mais complexas e especializadas. A mediação da Internet, em última análise, permite ao ator um maior controle desse capital, que de outra forma não estaria tão facilmente acessível. E a mediação da Internet também permite a criação de novas formas de apropriação individual. A cada nova tecnologia de comunicação mediada pelo computador, menor investimento é exigido de um ator para ter mais acesso aos valores da rede. Isso implicaria, de uma certa forma, em um menor comprometimento social e em um maior dispêndio de tempo para os atores. Ou seja, a Internet parece, como já mostraram Wellman e Quan-Haase lá no princípio dos estudos sobre o assunto, estar aumentando o capital social mas, entretanto, aumentando
também formas de apropriação desse capital, mais focadas nos laços fracos que nos fortes.
Considerações para futuros trabalhos
Acho que dentre as coisas que precisamos observar nas redes sociais hoje estao esses elementos: Até que ponto a mediação da Internet auxilia no comprometimento social dos atores? Ao tornar o capital social tão facilmente apreensível, com um mínimo investimento, será que não está acontecendo uma desvalorização deste? Há diferenças na apropriação desses tipos de capital dentre os vários níveis de idade/sexo/inclusão dos atores sociais? Tenho a impressão de que, enquanto os adolescentes parecem mais focados na transposição do capital social para os laços fortes (ou seja, utilizando a mediação para aprofundar e manter os laços sociais, de forma relacional), os adultos estão mais focados na apropriação desse capital a partir dos laços fracos (de forma mais informacional), mais genérica e menos social. Será que podemos pensar assim? Como a mediação da rede altera as percepções dos atores de valor/investimento/lucro social? Como pensar a apropriação capital social do ponto de vista da mobilização coletiva na Internet? Todas essas questões estão abertas e precisam de mais estudos para aprofundá-las.
Textos citados:
Bertolini, S. e Bravo, G. (2000)
Dimensioni del Capitale Social. DSS PAPERS SOC 4-00.
Bourdieu, P. (1986)
The forms of capital. In J. Richardson (Ed.) Handbook of Theory and Research for the Sociology of Education (New York, Greenwood), 241-258.
Lin, N. Social Capital. (2001)
A Theory of Social Structure and Action. Cambridge University Press: 2001.
Quan-Haase, A. e Wellman, B. (2002)
How does the Internet Affect Social Capital? In: Marleen Huysman and Volker Wulf, (Eds.). IT and Social Capital. Draft 4: Tuesday, November 12, 2002.
Update: Já falei no Twitter e esqueci de comentar aqui: Para quem se interessa pelo assunto do capital social, tem um site ótimo com leituras básicas e avançadas e muitas coisas online (não só focado na Internet), o
Social Capital Gateway.
[06 de maio de 2009]
Estou com muito trabalho e em meio a várias coisas e não consegui atualizar o blog direito esta semana. Então vão alguns drops de coisas que acho muito legais e que merecem a leitura:
# Ontem eu deveria ter feito a conferência de abertura do
Ciber.comunica 4.0, em Salvador, a convite dos professores Claudio Manoel e Marcello Medeiros. Acontece que, quando cheguei em São Paulo (metade da viagem), ao meio dia, descobri que minha conexão a Salvador tinha sido cancelada. Aliás,
todos os vôos que iam de algum lugar para Salvador também tinham. Fui procurar alguma informação e me disseram que era um "problema meteorológico". Fui
procurar via Twitter (#chuva e #salvador) e descobri que Salvador
estava no caos e que as chuvas causaram problemas muito sérios na cidade, inclusive a suspensão das aulas na universidade onde eu iria palestrar. Fui procurar nos jornais online e
nada de informações do caos em Salvador. Foi apenas com o Twitter que consegui perceber o quão ruim estava a situação por lá. Depois, hoje, consegui ler ainda o
excelente post que o André fez sobre como o Twitter "afogou" a mídia tradicional em Salvador.
# Saiu mais uma edição da revista
First Monday. Na edição deste mês, vários trabalhos muito legais. Os que achei excelentes:
- Facebook and academic performance: Reconciling a media sensation with data, de Josh Pasek, eian more, Eszter Hargittai , focando o uso do Facebook por jovens e a hipótese (destruída) de que o tempo no site prejudicaria o desempenho acadêmico. Vale ler também o debate com o autor do artigo que é criticado neste paper.
- Navigating the blogosphere: Towards a genre-based typology of weblogs, de Stine Lomborg, é outro artigo que achei muito legal. Nesse trabalho, o autor tenta criar uma classificação flexível dos gêneros de blogs, procurando diferenciar os tipos de blog com base em três dimensões: conteúdo, direcionalidade e estilo. No livro que organizei, ano passado, com a Adriana Amaral e a Sandra Montardo, o Blogs.com, mostramos alguns dos focos dos trabalhos dos blogs, e um pouco dessa diversidade.
# O Henry Jenkins começou uma seqüência de posts no blog discutindo
o que é aprendizado em uma cultura participatória. Vale acompanhar, pois merece a discussão do "que é aprendizado numa cultura de redes".
# Ontem também pipocaram informações a respeito de
uma possível aquisição do Twitter pela Apple. Vários me perguntaram o que eu achava.
Acho improvável pois o Evan e o Biz já fizeram suficientemente claro, inúmeras vezes, que não pretendem vender a nenhum preço a companhia agora.
# A
Lada Adamic publicou
um paper incrivelmente legal com outros dois autores (Eytan Bakshy e Brian Karrer)falando da difusão de gestos no Second Life, mostrando que a maior parte dessas trocas (são pacotes que são trocados entre os usuários)
aconteciam entre amigos (círculo social próximo) e dentro dos grupos sociais que tendiam a exibir os mesmos gestos. O que tem tudo a ver com
um artigo antigo onde eu discuti que informações que fazem mais sentido "social", ou seja, cujo capital social está focado no relacional tendem a se difundir mais entre os grupos sociais no grafo. Este é mais um tema apaixonante de pesquisa. :-)
[29 de abril de 2009]

Ontem li essa
matéria no Mashable e comentei no Twitter que a maioria dos usuários, apesar de criar uma conta no sistema, não se mantém ativo, o que mostraria que sob muitos aspectos, o
crescimento da ferramenta pode estar "mascarado". Isso quer dizer basicamente, que o Twitter é uma
ferramenta com baixa retenção de uso (
stickness - ontem não estava achando uma palavra para isso, hoje vi essa em algum lugar). Mas o que isso quer dizer?
Defendo que as ferramentas sociais (como os sites de redes sociais) possuem um valor e é isso que faz com que as pessoas os adotem ou não. Algumas vezes, esse valor é imediatamente percebido pela própria apropriação do grupo; outras vezes, a curva de uso precisa ser maior para que o valor seja perceptível. Por exemplo: o Orkut tinha um alto grau de retenção. Como assim? Ao entrar no sistema, as pessoas imediatamente percebiam valores que as faziam voltar. Era possível ver quem eram os amigos de seus amigos, por exemplo e "xeretar" a vida alheia. Era possível fazer um perfil, dizendo aos outros quem você é. E, também, esse tipo de site de rede social era desconhecido para a maioria dos brasileiros, o que também representava um fator novidade. O Facebook, outro exemplo, por outro lado, tinha uma retenção menor no Brasil. Muita gente fez conta lá quando o sistema começou a crescer, mas usava pouco. Primeiro porque no Brasil, já tínhamos o Orkut. Segundo, porque a interface era complicada e chata de entender, além de ser toda em inglês. Em ambos os casos, as ferramentas foram tentando aumentar a retenção, criando formas de interessar as pessoas e mantê-las usando o sistema (no caso do Orkut, o Open Social representou essa última tentativa; no Facebook, um novo design e as traduções, por exemplo).
Por que o Twitter tem baixa retenção?
A retenção é um resultado direto dos valores perceptíveis nas redes sociais que adotam o sistema (e não no sistema em si). Assim, mesmo se o Orkut fosse a melhor ferramenta do Universo, mas ninguém utilizasse, não teria valor social nenhum. Esse valor, portanto, depende assim do
capital social construído através da apropriação da ferramenta. Ou seja, o modo através do qual os grupos sociais resignificam essas ferramentas faz parte do valor que é construído nelas. E
a percepção desse valor pelos novos usuários é que aumenta a retenção na ferramenta.
É aqui que está a maior das forças e dificuldades do Twitter, na minha opinião. O Twitter é uma ferramenta social, cuja apropriação superou o uso inicialmente pensado ("o que você está fazendo?") e virou um
instrumento de informação e conversação. Como a conversação é dificultada pela própria interface e dinâmica da ferramenta, o
uso informacional é mais valorizado. Só que, como estamos acostumados com usos mais conversacionais e voltados para o social dessas ferramentas,
não é fácil compreender de forma imediata as redes sociais atuando como filtros informativos no Twitter. Esse é um valor que
só é descoberto com o uso da ferramenta e que é diferente de todos os outros sistemas usados no Brasil. Logo, o primeiro uso que todos tentam fazer do Twitter é aquele da conversação. Como o Twitter dificulta isso (demora para receber resposta, perda do ritmo do diálogo, dificuldade para compreender o contexto das mensagens e etc.), a maioria dos usuários se frustra, pensando que há ferramentas melhores e para de usar.
Acredito, portanto, que é por isso que o Twitter não vai virar outro Orkut no Brasil. É outro tipo de uso, que não interessa à muitas das pessoas, que utilizam a Internet de forma social. Também por isso, é uma ferramenta que tende a crescer mais com heavy users do que com usuários eventuais. É uma ferramenta cuja apropriação interessa mais a usuários mais velhos do que adolescentes. Não que isso não possa ser modificado, até pode. Novas apropriações podem surgir com grupos sociais diferentes. Mas a mim parece que, mesmo com o crescimento do número de usuários, a retenção no Twitter vai continuar baixa, principalmente pela dificuldade de perceber o capital social no sistema.
[28 de abril de 2009]
Via
Ibope/NetRatings, dados do
crescimento do número de usuários residenciais do Twitter no Brasil em março. Como o
Calazans afirma, o crescimento dos dois últimos meses é consistente. Ele explicou que nos até janeiro, a média de
usuários residenciais (diferente do gráfico de visitas, que
divulguei em outro post) ficou em torno de
40 mil usuários. Mas desde fevereiro, essa base já aumentou para mais de 240 mil usuários (mais de 500%!). Interessante notar também que os dados do Ibope focam apenas os usuários residenciais, enquanto muitos afirmam que a maioria dos acessos vem do local de trabalho (portanto, usuários que muitas vezes podem não ter internet em casa).
[27 de abril de 2009]
Uma das formas de examinar esses processos é via Twitter. Uma das questões que eu e a
Gabi Zago colocamos na pesquisa a respeito do Twitter foi se as pessoas repassavam informações que viam lá e por que. De forma muito interessante, descobrimos o seguinte:
- 88% das pessoas que responderam a pesquisa afirmaram que repassam informações para sua rede social.
- As informações obtidas via Twitter são tidas como bastante relevantes pela maioria dos respondentes.
- Parece haver uma correlação entre o uso informacional do Twitter e o ato de retwittar mensagens.
- A maior parte dos respondentes reconhece que sua rede social no Twitter é diferente de sua rede social em outras ferramentas. Isso também parece estar relacionado com a decisão do que vai ser passado adiante e em qual ferramenta.
- O uso do Twitter tem uma forte relação com a percepção do ator social como um filtro de informações e as decisões de repassar mensagens podem ser baseadas também nessas percepções.
Ontem, apenas para refletir um pouco melhor sobre essas questões, perguntei para a minha rede de seguidores no Twitter o que os fazia retwittar uma mensagem. Recebi mais de 57 respostas, das quais 49 (86%) faziam
menção direta ao valor informativo da mensagem e 47 (82%) relacionavam esse valor com o
conhecimento de sua rede social. Palavras como r
elevância para sua rede social, identificação para com a mensagem, valor para a rede, informação e seguidores foram bastante citadas. Novamente, alguns pequenos indícios de uma possível
correlação entre os retweets e o conhecimento da rede social parecem aparecer, bem como a
noção de reputação a partir daquilo que é dividido com a rede.
Com isso, parece que o Twitter torna-se uma ferramenta de informação bastante qualificada. Os atores sociais parecem ter noção da relevância e dos valores primários e secundários daquilo que é repassado à rede e o repassam essas informações na expectativa de obter determinados valores. Além disso, a noção de que suas redes sociais são diferentes também ajuda a perceber melhor essas motivações. Ora, se as redes são diferentes, os atores podem optar por difundir de forma diferente as diferentes informações. Isso vai ao encontro daquilo que o Jenkins defende como "capacidade de espalhamento" de uma determinada mensagem, como falei no último post.
Uma e muitas redes sociais e o espalhamento de informações
Mas isso também reforça a noção de que as
motivações estão fortemente associadas ao capital social percebido pelos atores sociais. A decisão de passar adiante ou não uma mensagem de forma consciente, assim, parece diretamente relacionada com a percepção dos valores que serão gerados na rede. Assim,
ferramentas diferentes poderiam ter mecanismos de espalhamento diferentes, construídos a partir da
apropriação delas pelos atores sociais. Ou seja, os meios pelos quais as informações são espalhadas seriam diferentes em blogs, fotologs, Orkut e mesmo, no Twitter, dependendo do modo através do qual são criados os sentidos de cada ferramenta para as redes que estão nela.
Essa percepção poderia levar-nos a discutir que
cada ferramenta tem um potencial diferente para o espalhamento de informações. Enquanto no Twitter, pelo caráter informacional de sua apropriação, as informações tendem a ser mais valorizadas pela sua relevância e novidade, no Orkut, pela sua apropriação mais relacional, as informações são mais valorizadas pelo seu potencial conversacional. Essas duas motivações são mais facilmente observadas em uma análise do Twitter x Plurk, por exemplo. Duas ferramentas semelhantes, mas apropriadas de formas completamente diferentes pela mesma rede social (em breve, posto algo sobre essa pesquisa).
Para saber mais:
ADAR, E. & ADAMIC, L.
Tracking Information Epidemics in Blogspace. Web Intelligence 2005, (2005)
GRUHL, D.; GUHA, R., Liben-Nowell, D. e TOMKINS, A.
Information Diffusion Through Blogspace. Proceedings of the 13th International World Wide Web Conference (WWW’04), May 2004, pp. 491–501.
RECUERO, R.
Information Flows and Social Capital in Weblogs: A Case Study in the Brazilian Blogosphere. In: ACM Conference on Hypertext and Hypermedia, 2008, Pittsburg. Proceedings of Hypertext 2008.[versão rascunho]
RECUERO, R.
O Digital Trash como Mainstream: Considerações sobre a difusão de informações em redes sociais na Internet. In: Vinícius Andrade Pereira. (Org.). Cultura Digital Trash: Linguagens, Comportamentos e Desafios. Rio de Janeiro: E-papers, 2007.
[26 de abril de 2009]

Há algum tempo, o Henry Jenkins publicou uma série de textos no blog denominada "
If it doesn't spread, it is dead", onde discutiu questões como memes, viralidade, espalhamento de informações e etc. Resumindo um pouco o que ele discutiu nesses posts,
Jenkins discorda que possamos falar em memes ou vírus na mídia. Para o autor, essas idéias forçam a compreensão de que informações seriam simplesmente replicações de uma idéia original, o que seria muito diferente do processo de comunicação em rede, onde as idéias são repassadas, transformadas e modificadas. Principalmente, Jenkins não gosta da metáfora biológica por conta da involuntariedade da transmissão (típica do vírus). Para Jenkins, é preciso adotar um novo modelo de pensamento, que ele chama
"Spreadable Media" ou Mídia "Espalhável".
The concept of "spreadability" preserves much of what was useful about the earlier models -- the idea that the movement of messages from person to person, from community to community, over time increases their effectiveness, and expands their impact.
Essa idéia do Jenkins é bastante interessante principalmente porque leva em conta o fato de que
as pessoas têm intenções e motivações por trás das mensagens que são passadas adiante para suas redes sociais. Eu defendo a hipótese de que os atores sociais possuem motivações, e suas decisões a respeito de passar ou não informações para suas redes são baseadas, muitas vezes, em
percepções de acúmulo de valor na rede (que eu chamo
capital social). Apesar disso, nem sempre os atores tomam decisões racionais. Muitas vezes, vemos o comportamento de
cascata, onde alguns atores decidem simplesmente baseados naquilo que outros fizeram, por imitação. Embora esse tipo de decisão possa ser racional sob muitos aspectos, nem sempre o é. Assim que não concordo totalmente com as críticas que o Jenkins faz à à metáfora dos memes (embora concorde quanto à viralidade). Claro, vamos lembrar que
o meme não é viral, são duas metáforas diferentes (na visão do Dawkins, a metáfora do meme é genética e evolutiva, não viral. As idéias não se propagam por "infecção" ou contágio, mas porque, em última análise, são mais
bem adaptadas -melhores - que outras). Dito isso, vamos passar ao ponto onde eu queria chegar.
Recentemente, o Jenkins fez
um novo post, discutindo como essas características seriam observáveis no caso da Susan Boyle. Nesse post, ele afirma novamente:
Contrary to what you may have read, Susan Boyle didn't go "viral." She hasn't gained circulation through infection and contagion. The difference between "viral" and "spreadable" media has to do with the conscious agency of the consumers. In the viral model, nobody is in control. Things just go "viral." In the Spreadability model, things spread because people choose to spread them and we need to understand what motivates their decision and what facilitates the circulation.
Essa questão da consciência da propagação, ou seja, do fato de que as pessoas não republicam informações sem razão me levou a pensar mais nessa coisa das motivações pelas quais as pessoas republicam informações. Assim, juntei um conjunto de idéias a partir da minha pesquisa
Difusão de Informações em Redes Sociais na Internet, que contou com o apoio do CNPq e que está no final, e vou fazer uma rápida sistematização.
Por que as pessoas repassam informações na Internet?
A primeira razão pelas quais as pessoas divulgam uma informação é
por conta de seu valor. Esse valor percebido pode ter várias nuances: uma informação pode ser engraçada, relevante para a rede, acrescentar embasamento em um ponto que estou tentando defender, trazer uma novidade, etc. Esse valor é percebido com
relação ao impacto que o ato de difundir a informação em uma determinada rede vai trazer. Há dois tipos de valores que são construídos na rede social:
o primário e o secundário. Assim, se eu divulgo uma informação que considero engraçada, o primeiro impacto que espero é que as pessoas riam comigo (primário). O segundo impacto que espero é que as pessoas me considerem engraçada/legal/relevante por ter divulgado aquela piada engraçadíssima. Portanto, enquanto o primeiro impacto é sempre em relação à rede, o segundo é em relação ao ator.
Logo, a percepção da intencionalidade da mensagem passa pela percepção desses impactos, que podem ser traduzidos, em última análise como capital social, uma vez que tanto no primeiro, quanto no segundo impacto, só podem ser percebidos como produtos de uma rede social, não acessíveis ao ator individual a não ser pela rede.
Mas isso não é tudo. O advento das ferramentas de comunicação mediada pelo computador parece ter tornado as pessoas
mais conscientes do ato de repassar informações. Como o feedback da rede é mais rápido, mais facilmente se tem a percepção dos impactos primários e secundários na rede. Com isso, as motivações parecem tornar-se mais apuradas.
Em outros trabalhos, eu defendi que há dois motivos principais pelos quais as pessoas replicam informações em redes sociais na Internet: O primeiro é por conta de seu
valor relacional, onde o valor secundário está nos laços fortes, ou seja, nos atores que estão mais próximos de mim. Nesses casos, a mensagem tende a ser difundida entre os grupos sociais, pois parte do valor é que os demais atores
participem de forma ativa, dessa difusão. Há um impacto reputacional, mas menor. É o caso, por exemplo, dos jogos, da entrada em um site de rede social, etc. O segundo motivo é
informacional. Aqui, o valor está na
propagação da mensagem em si e não na interação que ela proporciona. Daí, é mais relacionado ao
espalhamento pelos laços fracos e o impacto secundário é diretamente
relacionado à reputação. É o caso de um post no meu blog, por exemplo. Quanto mais gente sabe disso, mais interessante é pra mim.
Vou explicar isso um pouco melhor a partir de um exemplo no próximo post. :)
[22 de abril de 2009]

Um dos temas que mais fascina pesquisadores de todo o mundo é o
processo de difusão e transmissão de informações entre os atores sociais. Esses estudos têm sido mais e mais freqüentes com o advento da Internet, principalmente porque a Rede permitiu que o acompanhamento das informações devido aos
rastros deixados nela. Com isso, estudiosos de diversas áreas têm focado esses processos a partir da perspectiva de redes, e de um modo especial, a partir de pontos de vista mais comuns na Economia, como a teoria dos jogos e as cascatas de informação. É principalmente nesse último tema que quero discutir algumas idéias.
As chamadas
cascatas de informação (
information cascades) ocorrem quando temos um tipo de comportamento (ou decisão) que é repetido por vários atores com base na observação dos demais (influência) e não em uma análise a partir das informações recebidas a respeito. Ou seja, as pessoas repetem as informações baseadas no fato de que outras pessoas estão fazendo assim.
The simplest and most basic cause of convergent behavior is that individuals
face similar decision problems, by which we mean that people have similar information,
face similar action alternatives, and face similar payoffs. As a result, they make similar
choices.
(Bikhchandani,Hirshleifer & Welch,1998)
Um dos princípios que está por trás do estudo das cascatas é justamente a perspectiva de que os atores sociais são influenciados por decisões de outros atores sociais. Ou seja, aprendemos com os demais atores da rede social os valores que estão na rede e esse aprendizado pode ocasionar determinadas tendências de comportamento. Por exemplo, suponhamos que eu receba um link no Twitter. A minha decisão em repassar ou não essa informação para a minha rede social é baseada em vários fatores, como a reputação de quem me passou o link, o capital social acumulado na rede pela ação e etc. No entanto, há ocasiões onde eu repasso essa informação simplesmente porque todos estão falando dela, a despeito da minha racionalização a respeito dela (por exemplo, eu achar que o link é "suspeito"). Neste caso, estou sendo influenciada por uma cascata de informação.
Cascatas no Twitter
Ontem, o
Matthew Hurst publicou uma pequena observação no blog dele. Ali, ele discutia que a limitação de contextualização e de citação no Twitter era um fator que impedia que ali surgissem cascatas explícitas, ou seja, com uma citação direta da fonte. E eu fiquei pensando em como podíamos pensar as cascatas no Twitter, e como muitas vezes, ao menos em Português, elas são bastante evidentes.
Um dos primeiros exemplos que me ocorreu foi aquele "clickjacking" que o Twitter recebeu em fevereiro. A idéia era que alguém divulgou um tweet onde se lia "Don't click" com um link que, se clicado fosse, fazia com que o ator repetisse o tweet para sua rede de seguidores e assim sucessivamente (
falei disso aqui). Vejam que o link, em inglês, poderia ter acendido várias luzinhas vermelhas para muitos, que podem ter desconfiado da informação. No entanto, mesmo essas pessoas
acabaram decidindo clicar no link, por conta da
influência de outros atores. Esse é o processo típico de uma cascata (embora exista aí um esquema de "enganação" no processo).
O retweet também pode ser uma forma de cascata. Aliás, uma das
possíveis razões para que um determinado link seja retwittado cada vez mais é, justamente,
o fato de vários atores o fazerem. Assim, quanto menos retweets um link tem, menores suas chances de ser retwittado, quanto mais retweets ele tem, maiores suas chances de ser retwittado (pode parecer óbvio, mas é um elemento que muita gente não leva em conta em mídia social). A conseqüência óbvia disso é que pessoas com maior número de seguidores têm mais chances de ser retwittadas porque são mais visíveis na rede e quanto mais retwittadas, mais visíveis se tornam e mais retweets recebem. Por exemplo, se entrarmos no
Migre.me, é possível ver quais links foram mais retwittados utilizando o sistema no Twitter. Nem todos os tweets mais retwittados são, por exemplo, considerados relevantes a uma primeira vista. Assim, o que faz a popularidade desses links? Oras, uma cascata. :-)
Mas uma cascata é algo necessariamente bom?
Aqui está a questão-chave. O grande problema é que a cascata é
característica de um comportamento de horda, ou seja, um comportamento onde
a racionalidade dos atores individuais é subjugada pela observação do comportamento dos demais. Isso quer dizer que uma cascata não é necessariamente algo que está
adicionando valor e relevância a uma rede social (caso do
clickjacking) ou que está sendo vista de forma positiva pelos vários núcleos da rede. Ao contrário, uma cascata de informação pode, inclusive,
demarcar um comportamento oposto. Assim, a cascata pode indicar a visibilidade de uma informação, mas não necessariamente uma racionalização sobre ela, que pode vir posteriormente e de forma negativa.
É por isso que eu acredito que, além de analisar simplesmente como uma informação está sendo difundida na rede social é preciso também
analisar os efeitos que essa informação tem sobre a rede social e o
valor que está sendo associado e construído com ela. Se é verdade que as redes sociais na Internet auxiliaram a perceber de forma mais direta essas cascatas, também é verdade que esses processos são mais complexos do que parecem a primeira vista.
Para saber mais sobre as cascatas:
# Bikhchandani, S., Hirshleifer, D., and Welch, I. (1992), "
A Theory of Fads, Fashion, Custom, and Cultural Change as Informational Cascades," Journal of Political Economy, Volume 100, Issue 5, pp. 992-1026.
# Bikhchandani, S., Hirshleifer, D., and Welch, I. (1998), "
Learning from the Behavior of Others: Conformity, Fads, and Informational Cascades" Journal of Economic Perspectives, Volume 12, Issue 3, pp. 151-170.
[19 de abril de 2009]
Notícias e textos a respeito do que eu ando fazendo, textos que achei interessantes e etc. (no meio do feriadão):
# Sexta conversei com o
Juliano Spyer em um talkshow via Skype e Twitter que foi bem legal. Faleu sobre algumas coisas da pesquisa do Twitter que já andei publicando por aqui e também alguns apontamentos sobre um texto que eu estava escrevendo para o
Jornalistas da Web.
O texto saiu e já pode ser lido online. Quando sair o áudio da entrevista, coloco o link.
# Alguns
dados da popularidade do Facebook foram recentemente divulgados pelo
O'Reilly Media. Interessante acompanhar o crescimento em países onde o sistema não era tão popular.
# A
chamada de trabalhos para a Intercom 2009 está aberta. Este ano, o evento acontece em Curitiba. Eu vou participar de uma mesa sobre
Epistemologia, Teorias e Metodologias de Pesquisa em Cibercultura, falando um pouco do estudo das redes sociais na Internet.
# Mais uma da minha agenda: No dia 5 de maio estarei em Salvador, participando do
Cibercomunica 4.0, evento cujo tema é
Redes Sociais, Comunicação e Tecnologia. Quem estiver por lá, apareça para o debate. As inscrições vão até o dia 04 de maio.
[17 de abril de 2009]

O fato dos sites de redes sociais estarem crescendo, como os anúncios dos sites especializados não param de mostrar não é exatamente uma coisa surpreendente. Afinal, o
Howard Rheingold já tinha mostrado, há quase 10 anos, que a Internet estava complexificando o nosso "espaço social". Ou seja, as pessoas estavam utilizando o ciberespaço também como um lugar para conhecer pessoas, aumentar sua rede social, encontrar suporte e apoio social. Vimos isso repetidas vezes no Brasil: primeiro com os chats, que rapidamente tornam-se populares (lembro especialmente do IRC, um dos meus primeiros temas de pesquisa); depois com os mensageiros como o ICQ e o Live Messenger; depois ainda com os blogs e fotologs; finalmente com sites que mostravam as redes sociais, dos quais o Orkut aqui foi o maior expoente.
Mais interessante é o fato de que
esses sites parecem ser adotados de forma cada vez mais universal. Fenômenos semelhantes àqueles que observamos no Brasil foram observados sistematicamente por outras populações e outras culturas. Participei de vários painéis com vários pesquisadores de outras partes do mundo e chegamos sempre às mesmas conclusões. Não apenas essas ferramentas são adotadas por culturas e países essencialmente diferentes (como a Polônia, a China, os Estados Unidos, a Itália, a Austrália, o México, e mesmo, o Irã), mas os padrões de utilização tem parecido os mesmos quando comparamos os trabalhos dos vários pesquisadores.
Padrões de contrução de identidade; de construção de laços sociais e de capital social são muito parecidos nesses grupos. Do mesmo modo, quando olhamos para a rede social que é construída nessas ferramentas, também observamos elementos semelhantes, como os processos de clusterização, sua importante relação com o mundo offline (como a
danah boyd já apontou várias vezes), sua influência nas relações com o mundo offline (
vide o estudo sobre Netville do grupo Barry Wellman). Claro, isso não significa que não existam diferenças culturais. Existem e penso que um bom caminho para entendê-las é acompanhar o blog
Futures of Learning com o estudo sobre algumas culturas e sua relação com a tecnologia. Mas as diferenças são muito mais pontuais do que essenciais no processo de socialização online.
A adoção dos sites de redes sociais como são utilizados no mundo hoje trouxe duas novidades para a pesquisa:
- A questão da persistência dos rastros: Pela primeira vez os pesquisadores estão podendo estudar esses processos sociais a partir dos rastros deixados na Rede. E assim, é possível observar também o surgimento de novos processos e novas formas de construir conexões sociais.
- Com isso, uma oportunidade de, através das próprias interconexões perceber como esses processos acontecem em culturas diferentes, indivíduos diferentes e grupos sociais diferentes. Essa é uma das maiores novidades na área: além da obtenção de dados, é possível obtê-los em larga quantidade e compará-los.
Por conta desses elementos, os pesquisadores estão cada vez mais interessados nesse tipo de ferramenta. Mas o interesse não está (ou não deveria estar) na sua novidade, porque o processo de utilização parece ser apenas natural. O interesse está, fundamentalmente, na
possibilidade de observar os fenômenos sociais de forma mais ampla e com maior número de dados. O fenômeno da pesquisa a respeito do assunto, assim, deve-se menos à novidade dessas ferramentas e mais à possibilidade de aprender mais sobre nós mesmos através delas. O interesse está menos na ferramenta e mais no uso dela, e seu impacto nos processos sociais. Por isso que eu defendo que todo o site cujo uso é social é, em última análise, um site onde podemos estudar as redes sociais e assim, um site de rede social. Logo, os sites de redes sociais estão em todos os lugares e existem desde o início da Internet.
[14 de abril de 2009]
Os dados dos usuários brasileiros do Twitter recentemente divulgados pelo
Ibope/NetRatings trazem vários questionamentos interessantes. Para traçar algumas idéias, peguei os números divulgados por eles dos últimos 12 meses e fiz o gráfico abaixo para ajudar na explicação. Primeiro, os dados mostram que o Twitter começou a crescer no Brasil atingindo picos há cerca de 6 meses (setembro e novembro de 2008), caindo abruptamente logo a seguir em dezembro. A partir de janeiro, no entanto, o número de usuários volta a crescer, quase dobrando entre fevereiro e março.
Dados em milhares (000) do Ibope/NetRatings referentes aos últimos 12 meses (março de 2009-abril de 2008).
Dois fatores estão essencialmente importantes nesse crescimento. O primeiro é a
cobertura da mídia. Nos últimos meses, diversas matérias a respeito do Twitter apareceram na grande mídia. Esse buzz tem contribuído bastante para que a ferramenta apresente o crescimento que estamos vendo. A adoção, no entanto, ainda não parece massiva.
Esse crescimento pode ser comparado com o Orkut no Brasil em 2004. Por coincidência, o Orkut começou a apresentar um crescimento considerável a partir de abril de 2004 (como vemos no gráfico abaixo, de Hampell, 2004). Apesar da cobertura midiática ter vindo algum tempo depois, ela terminou por assegurar a popularidade do Orkut, tornando-o quase um objeto cultural no Brasil.
Dados retirados da pesquisa de Hampell (2004). O Brasil é a linha marrom no gráfico.
A idéia de mostrar esses dois gráficos é
discutir as comparações que têm sido feitas entre o Twitter e o Orkut no Brasil. São dois casos muito diferentes (ainda). O crescimento do Twitter ainda é pouco ou nada comparável com o crescimento do Orkut (desconsiderado que o percentual da população com acesso à Internet cresceu bastante desde 2004 no Brasil). Enquanto neste último vimos um crescimento reforçado pelos
convites pessoais entre os atores das redes sociais, no Twitter, penso que podemos creditar o crescimento à uma
expressiva cobertura midiática. Ao mesmo tempo, parece-me que a
apropriação informacional do Orkut tende a
restringir parte de sua popularização, ao menos fora do universo de
heavy users. A mim parece que como o Orkut, o Twitter precisa de
uma função relacional forte para popularizar-se no Brasil. (Por conta disso, sempre me pareceu que o Plurk teria maiores condições de tornar-se popular por aqui do que o próprio Twitter.) Apesar deste crescimento observado, ainda acho que o Twitter estabilizará o crescimento em seguida no Brasil,
ainda dentro de um universo de nicho, principalmente por conta de sua apropriação inicial. No entanto, se o crescimento deste último amplificar-se nos próximos meses, o que indicaria que
novas formas de apropriação poderiam estar surgindo e aí sim, penso que poderíamos começar a discutir as possibilidades de um efeito de rede global, como o do Orkut.